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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Que venha 2015! - Silêncio

Última poesia do ano. Que venha 2015! Apreciem sem moderação.



Silêncio


Enquanto todos dormem, o mundo não descansa.
O mundo nunca para de girar dentro e fora de minha cabeça;
O mundo nunca para de criar inocentes que choraram.

O mundo não se cansa de nos fazer perder a fé; de postergarmos nossa fé em algo que nunca se concretiza por completo (fragmentos de partículas invisíveis de átomos deixados ao leu – átomos de bóson esquecidos).

O mundo não sonha – somos um eterno sonho dentro do mundo que não sonha. Um eterno amanhã que não chega – tormenta onde homens não pensam duas vezes em te fazer ajoelhar.

O mundo não se importa com o choro dos que acabaram de nascer, com as lágrimas dos que acabaram de perder quem amava. Na verdade, o mundo é como um daltônico que, ao invés de não enxergar bem as cores, não nota nossas partículas (pobres dos nós, seres que nascem em busca de um sentido, uma posição no tabuleiro que Einstein recusou jogar).

O mundo cria seus mitos, os motivos e as justificativas para que o certo seja o certo, o errado seja o errado e o justo seja ao bel prazer daqueles que todos ouvem. Temem.

O mundo só chora – abre uma exceção – quando um poeta deixa de existir, pois, são os únicos seres – amaldiçoados – que sentem de verdade, sentem por todos os poros, o mundo que não se importa quando mais um imortal morre antes de chegar aos cem anos de vida.

Não ouço o silêncio do mundo.
Não sinto o silêncio em mim.


Marcos Martins.

20.12.14.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Prosa, pesar e existir




Prosa, pesar e existir


Quero sair de meu corpo, esse templo ruído que se tornou. Há grades, não há chaves, apenas trancas e contas e mais contas. Apenas tédio.

Minhas trancas não se abrem para me deixar sair, nem para banhar-me ou tomar um pouco de sol. Fico sujo. Impuro. Burocrático. Foi para isso que fomos modelados? Para sempre sentirmos sujeira em nosso existir? Esse foi o trato entre o criador e o diabo para que no inferno existisse um porteiro, trabalhando todos os dias do ano, até em feriados santos.

Somos obrigados a sentir uma batalha dentro de nossa essência que nunca cessa. Olhar, sem nunca enxergar o horizonte. 

Muitos acham que o inferno é um lugar de punição e sofrimento eterno, mas no inferno, existe apenas uma fila, uma interminável fila e ao chegar ao início dela, nada acontece, se pega outra senha, para outra fila e tudo fica como exatamente está. Os anjos decaídos riem e se misturam, dando lições de moral para tudo se tornar ainda mais pesaroso e todos permanecerem com seus ombros caídos, esperando mais uma vez sua vez na fila chegar. 

Algumas pessoas dizem que o inferno é cheio de livros e mais livros de autoajuda, de autores diferentes, e todos têm que ser lidos em vos alta, tudo ao mesmo tempo. Tem quem diga que o inferno é aqui mesmo e fica em seus lares, outros, que fica numa rua sem saída, numa casa sem banheiros e vez por outra, anjos vem com rolos de papel higiênico para distribuir e se simpatizam com você, te levam para os bosques do Éden e te deixam por lá, se escondendo das serpentes, que hoje são muitas e que sabem como ninguém plantar árvores e nos despir de nossas inquietações. 

Prosear é tão fácil, existir um mistério que não se encontram as respostas em bulas de remédios, nem em anúncios de jornais. Prosear é preciso, é um mal necessário para suportar o existir.


Marcos Martins.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

TODOS OS SONHOS


TODOS OS SONHOS


Todos os sonhos têm o mesmo tamanho, pois todos os sonhos são difíceis de ser tocados;

Todos os sonhos são sonhos são sonhos são sonhos, que não se devem ser sonhados apenas dormindo - apenas acordado;

Todos os sonhos podem ser tocados, mesmo que em sonho, mesmo que intocado;

Todos em um só lugar, todos de dentro da cabeça escorrem por entre as frestas da senhora sorte, para não só serem sonhados, mas vividos, tocados.

Os sonhos, meus amigos, não devem ser apenas sonhados.


Marcos Martins.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

NÃO MAIS SENTIA O MUNDO


NÃO MAIS SENTIA O MUNDO


Hoje encontrei um homem sem vida na imundície da praça. Era um homem incompleto, não mais tinha vida, não mais tinha alma. Não mais tinha culpa, não mais tinha nada. Mas mesmo assim sorria e parecia saber das coisas bem mais que eu, que sou homem letrado.

Hoje encontrei esse homem, de semblante suave, olhar cativante, daqueles olhares que revelam uma sabedoria quase mística, mas sou homem letrado e não acredito no místico, porém, mesmo assim algo ascendeu.

Aquele homem andava de forma graciosa, quase flutuava, era mais mavioso que Odette – que fora enfeitiçada. Podia sentir que ele não mais sentia o mundo em suas costas. Era livre. Era sujo. Era limpo. Era livre.

Hoje encontrei um homem sem vida moderna, sem vida imposta, sem gadgets. Tudo parecia perfeito nesse dia memorável: pombos comiam pipocas deixadas no chão; casais andavam enamorados; crianças sorriam; velhos não mais choravam de solidão. E então dei por conta que apenas eu via o homem na imundície da praça; apenas eu via aquele homem sem medo de pisar descalço no chão; apenas eu via o belo embaixo daquelas roupas sujas (barba por fazer há dias); apenas eu começava a sentir a liberdade que ele sentia (mesmo com o mundo ainda em minhas costas); apenas eu me via sujo de fora da imundice da praça; apenas eu, ninguém mais me via, ninguém mais sentia.


Marcos Martins.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Saiu mais uma matéria em minha coluna "Devaneios Literários e Afins", no jornal Folha de Perdões

Deadlline


Olá, como vai sua existência hoje?


O natal está batendo a nossa porta, enquanto o ano novo espera, de forma paciente, o telefonema da assistente social informando que seu irmão mais velho, O ano velho, faleceu (acho que é a única notícia de falecimento que uma pessoa recebe e se alegra).

Tendemos a reavaliar nossas vidas com o termino do ano, buscamos no fundo da cabeça o que fizemos de bom, de ruim; as promessas não cumpridas são revalidades por mais um ano e temos a certeza de que no próximo ano conseguiremos cumpri-las – como o governo que sempre diz que vai cumprir suas metas, porém nunca as cumpri.

(...)

Para continuar lendo é só clicar aqui.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Minha coluna no Jornal Folha de Perdões

O ano está findando e eu começo uma nova fase em minha vida. A partir de hoje passo a fazer parte do time do jornal Folha de Perdões, jornal que dá nome a cidade de Perdões, localizada em Minha Gerais.

Convido todos os amigos a darem uma lida em minha coluna, que vai sair toda quarta-feira, chamada Devaneios Literários e Afim. O primeiro texto já está no jornal.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Gentileza por que fugiste




Gentileza por que fugiste





Mataram a gentileza;
Corromperam o natal;
Subornaram a ideologia;
Falaram mal dos bons vizinhos, disseram que eles só queriam aparecer.

Fizeram pouco das pessoas educadas;
Ridicularizaram os homens de boa fé;
Espancaram a primavera;
Pisaram em meu coração.

Fui à busca da educação, estava caduca e com transtorno bipolar.
Perguntei as minhas lágrimas por que chorava? Reponderam: Estamos cansadas de tudo e resolvemos nos suicidar, saltando de tua íris para o fim de nossa existência.

Torturaram os cânticos natalinos;
Puseram foco na pomba da paz, que voou em chamas e sem rumo buscando o firmamento que não há mais.

Debocharam dos tratados de paz;
Mataram dentro do cinema, enquanto se passava um filme que falava de paz - A gentileza dos homens, aqui jaz.
Há gentileza nos homens? Não sei se nos cabe mais.

Caráter morto;
Amabilidade obsoleta;
Respeito em poucos homens;
Civilização dos incivilizados;

Respingos de sorrisos inocentes não nos tocam mais, não alcançam nosso âmago. 
Só restou o desejo de se, timidamente, falar: feliz natal a todos os seres racionais com momentos irracionais.

Marcos Martins.


OBs.: por causa de um salgadinho, nesse fim de semana, um cara quase apanha no cinema, pensando nisso resolvi fazer esse poema, nessa data mágica que é o natal.    

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Fosco


Fosco


Perguntei aos meus olhos o porquê de chorarem tanto, um deles me respondeu que era porque eles ardiam em brasa, devido à dor em ver todo o mal e nada poder fazer.

Meus dias passam lentamente – o relógio é meu inimigo – e não quero mais saber o porquê de tudo, prefiro a ausência da visão. Prefiro o nada que me preenche e conforta tanto; prefiro não tentar montar o quebra-cabeça, faltando peças, que essa vida plástica apresenta ao meu viver.

Não quero mais ver. Não quero mais maltratar meus olhos (perderam a inocência há tempos). E esses colírios, esses colírios que fingem clarear as coisas, só me faz mal – castigo eterno até que o chão consuma tudo o que minha íris possa ver.

Essas pálpebras que não fecham para sempre, a cada dia faz com que meus olhos fiquem mais sensíveis – não aguentam mais ver toda essa culpa, esse raio refratário que bate e marca profundamente (luz sem cores que ofusca o que gostaria de ver).        

Esses olhos acumularam tanta tristeza ao longo da jornada do herói (que de herói não tem nada, nem jornada a de ter), esses olhos castanhos, esses olhos neon perdidos no meio do labirinto vazio-fugaz, que não canso de ver, é impotente de nada poder fazer e calar-se em panos quentes... Não posso fazer. Ninguém me fortalece.

Essa retina velha que apenas vê fragmentos de pigmentações indecifráveis, cores cítricas, natureza morta, mãos que apedrejam; gente sem alma, gente sem olhos – cegos olhos que não deixam ver todas as cores do arco-íris, porque a película de lágrimas deixa tudo fora de foco e sem foco, tudo fica mais difícil de tocar, consertar, ver e algo poder fazer.

Ninguém me fortalece. E o cristal de minha íris não emite luz própria, não reflete a beleza que todos dizem o ser ter.          



Marcos Martins.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

EM HOMENAGEM A MANOEL DE BARROS - Mais um inspirado no grande poeta Manoel de Barros. Um ótimo fim de ano a todo(a)s!



LÍRICO


Essas horas que não passam quando fico em ócio;
O tempo que me é imparcial, quando minha mãe me acalenta, enquanto cresço sem notar;
Os pedaços de folhas pelo chão – natureza morta que me torna vivo;
O sentido das coisas que para mim não faz o menor sentido, enquanto caminho sem tocar o chão.

As horas que escorregam por entre meus dedos e cai asfalto a afora não têm serventia em meu dia a dia burocrático, então as deixo partir e recomendo que não olhem para trás, assim não me e se apegam mais do que deviam.

O tempo não é teu amigo, 
Teus pais é que são – mas só enquanto tens inocência.

Aumento meu mundo em meus versos;
Aumento a distância entre o ser, ter e o estar – nem sempre estou, mas sempre sou e quero ter sem ter que de mim desapegar.

Em uma poesia, posso me explicar, mas não o quero fazer, pois poesia não se explica, assim como os corações enamorados – poesia não se explica –, nem as razões para se fazer o poetar. É igual ao acalento de mãe, que não precisa de motivos para se iniciar.

Essas horas que não passam quando fico em ócio;
Esse tempo que não se importa se rezo ou choro;
Os pedaços de folhas mortas que decoram o chão;
O sentido do que não é lírico para mim não tem a menor serventia em um mundo cão.

Não sinto por só saber fazer isso.... Poetar, poetar, poesia. 


Marcos Martins.

domingo, 16 de novembro de 2014

A TI MANOEL DE BARROS - Poesia a Barros


Poesia a Barros


Apaixonei-me por um homem de 97 anos que não foi feito de barro e sim de argila, com uma anomalia única em seu ser - ser poeta. 

Apaixonei-me pela poesia exalada de seus poros, que me colocou dentro do infinito para que eu pudesse ver, bem quietinho, o belo das coias pequenas que passam despercebidas, que se escondem debaixo das pedras que aprisionam o silêncio, que alargam os horizontes e gravam o cântico dos peixes pela manhã.

Hoje, não preciso mais de olhos para ver o sol, é só fecha-los e contemplar o calor que me aquece e me alimenta, perpassa meu corpo, acalenta meu eu.

Essa paixão foi amor à primeira frase, ao primeiro verso, e logo se espalhou por todo meu corpo, dentro de meus rios - transportadores de liquido vermelho vivo.     

Manoel de Barros, que só mente em seu poetar dez por cento, o restante inventa e cria sua poesia impar. Manoel é a poesia materializada, pulsante, viva e infinda. Uma criatura dessas não pode ter sido feita do barro – apesar de levar no nome pluralizado-, foi feito de argila, que possui profuso uso – inclusive medicinal. Manoel é isso, poesia que cura a alma, que produz vários artefatos poéticos – todas, peças únicas e insubstituíveis.

Manoel de Barros, único ser poético em tempo integral, que ficou a toa à vida toda, comprou o ócio em prol da poesia, para o bem de quem se deixa tocar a alma.



Marcos Martins.
                       

Essa poesia é uma homenagem ao Grande (com G maiúsculo) poeta Manoel de Barros, nascido à beira do rio Cuiabá em 19 de dezembro de 1916, falecido no último dia 13 de novembro 2014.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

ABAFADO


ABAFADO


O grito.
O silêncio.
O grito.
Há silêncio.

O eco;
O ego;
Dor que vem e se aloja em meu peito.

O grito.
O silêncio.
Coisa que toco e quebro com meus defeitos.

O susto;
O lamento;
O grito dentro de meu silêncio.

Estética rasa, rala como o século que precisa de adendo, onde tudo falta, onde tudo se abafa e apenas olhamos como os dias ainda podem passar lentos.

O grito - meu silêncio.
O grito - esquecimento.
O grito - prisão sem trancas.
O grito - pássaro sem asas que canta um canto de lamento.

O grito abafado pelo vento.
O silêncio perdido dentro do grito.
O grito que me negam, engulo com meus medos.


Marcos Martins.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AO VENTO


AO VENTO


Hoje, tentei chorar por você, porém lembrei que não lembrava mais de seu rosto – tanto sentimento reprimido em meu peito, tanta força, dor, lamento. 

Hoje tentei chorar por você, porém lembrei que não havia mais tempo; senti uma dor em meu peito, dessas que queimam e não passa, é como um sentimento reprimido uma dor aguda, prisão, lamento.

Hoje tentei chorar por você, porém minha vida-carrossel não me tirava da rota de colisão e já não havia mais palavras, mais vocábulos, sinônimos, parônimos, adjetivos que pudesse usar – tudo secou, assim como o manadeiro do velho Chico, tudo secou.

Hoje, que dia é hoje? Isso importa? Não, não mais, pois o que importa deixou de ter importância e o agora não tem mais serventia, porque todos os dias se parecem com o ontem e o eterno retorno é uma prisão psicológica que deixa marcas profundas.

Hoje tentei chorar por você, mas você não se importa com poesia, porque sabe que não tem serventia – rimas não preenchem teu vazio.  

Hoje me libertei e não importa-me tuas lamurias, pois hoje sou um livro com páginas ao vento, que não podem ser domadas.


Marcos Martins.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Poema 43

Poema 43


Um início para o entendimento do verso a ser escrito. Não comecem pelo final ou pelo meio, mas sim pelo início.

No seu fim, desfecho feliz ou infeliz.

Em seu meio, o receio de um final infeliz.

No início, a esperança de um final tal como outros contos que, escondem seu verdadeiro final.

Devo aceitar meu fim ou mudar meu meio e o por vir?




Marcos Martins.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O poeta




O poeta


Não sou maior que qualquer poema, por menos parágrafos ou linhas que tenha. Sou apenas um condutor, um maquinista que não faz mais que sua obrigação. Na poesia, às vaidades devem ser esquecidas, pois o poeta que cria um belo poema, apenas pelos aplausos e gritos de “bravo!”, não deve ser lido, pois seu poetar não tem serventia.

O poeta deve ficar feliz com o brilho nos olhos de seu leitor e conter sua vaidade de homem, pois poetas não são deuses, são homens que distorcem o real para que mais pessoas possam enxergar as variações de cores; às variações de tons, às infinitas formas de sonhar, sofrer, sorrir, existir, se emocionar. O poeta deve proporcionar uma visão das coisas, criar uma ponte para hemisférios que poucos conseguem perceber.

O verdadeiro poeta se alegra, não com o nascer de seu poema, mas com todas as sensações que uma poesia possa propiciar a quem se aventura a desbrava-la, aquém se aventurar, desnudo, a viajar para dentro dos mistérios de seu coração e não temer perder-se.


Marcos Martins.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Flerte com a vida



Flerte com a vida



Ela me olha de longe, me observa, estuda, flerta.
Tem medo de se aproximar de mim e eu de tentar alcançá-la. Apenas nos olhamos. Há desejo.

Mais uma vez confabulo possíveis formas de felicidade a seu lado e, me pego a imaginar universos paralelos onde não há dor, magoa, incertezas ou esse arcabouço de miséria e mesquinharia humana. 

Ouso me aproximar de forma sutil. Aproximo-me com os lábios trêmulos e as pernas tímidas. Chego bem perto, mas não há toco. Apenas desejos em erupção.

Ouso falar algo, a voz falha, tremem minhas mãos.
Penso em um poema, lembro que não o terminei e mesmo que o tivesse finalizado é triste de mais para iniciar uma conversa amiga.

Ela me olha, um olhar de piedade, me sorri e se vai.  
Eu a desejo, ela não chora mais por mim;
Eu a desejo! Ela se vai sem me deixar sentir.


Marcos Martins.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vivo com meus Nãos



Vivo com meus Nãos


Toco meu coração; 
Toco meu espírito;
Toco meu corpo sem me olhar no espelho; 
Cansei de meu reflexo.

Sinto às cólicas do mundo
Sinto dores nos ossos, às mesmas dores da época de meu crescer – crescer machuca (é um mal necessário).

Toco meu coração, percebo que já mencionei isto, percebo o quão cíclico é meu existir.

Gostaria de poder chorar por você que devora esses versos;
Gostaria de poder chorar, poder tocar você – mesmo sem te tocar – te tocar – mesmo sem compreender meus caminhos – te tocar.

Sempre convivi com as limitações do "Não", o mesmo que carinhosamente nos é dito por nossas amadas genitoras.

Sempre o Não, sempre um Não a me cercar. Mas quando acho um sim, perdido em livros empoeirados sem o acordo gramatical, mesmo assim, sempre termino nas mãos do Não.


Marcos Martins.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ó! Poetar que abre almas



Ó! Poetar que abre almas 



A poesia só faz sentido quando nos toca no fundo da alma, sem agredir o espírito;

A poesia só faz sentido quando gera um gozo que deixa tonto quem a experimenta, não importando a posição do corpo, intensidade, força, o tempo, contanto que tenha libido.

Poesia que transforma faz bem; 
Poesia burocrática macula a vida de quem a lê;
Poesia, poetar, poema, poesia.  

No Poetar, não é preciso dar explicações, é como o amor, como o sexo, excitação inexplicável que embriaga todo o corpo, entorpecendo a mais dura alma, te faz querer viver, te faz sentir-se vida, mesmo que seja um poema sem rimas, melancólico, triste ou obscuro, não importa, contanto que as palavras, as frases que se ligam tenham alma. Mesmo que a primeira vista, não faça muito sentido, mas mexa com o âmago de quem o lê.

O poema só se completa, quando suas palavras explodem em sentimentos, faz borbulhar as emoções, cria risos de canto de boca, lágrimas que se escondem nos cantos dos olhos, suspiros, cumplicidade entre o poeta e o leitor.

Poetar é vida, poema é técnica, poesia é sentir-se livre, é como pular da beira do firmamento e sentir que Deus desce de seu trono, feliz em sua eternidade, para vir nos receber com folhas de papiro e uma longa caneta em formato de pena de asa de querubins, para criarmos um soneto, pois os poetas são loucos que fugiram do hospício do céu, rasgando a barriga das nuvens, descendo nus e transformando em epifanias todos os versos que não cabem mais no peito, enchendo de afeto quem está disposto a olhar além das cavernas, além das sombras, além de si mesmo.


Marcos Martins.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ônus (conto)



Ônus


  
Flashes e mais flashes eternizavam, de uma forma mórbida, a garota deita, seminua, em um matagal afastado do centro. Ela sonhava em ser modelo e agora estava morta.

Sofia tinha 16 anos, mas nunca havia votado em eleições municipais ou nacionais. Não teve tempo. A mãe olhava, sem acreditar em seus olhos, a menina que carregara no ventre um dia ser motivo de curiosidade de populares e alimento para os vermes implacáveis. Três policiais tentavam segurar o pai que estava fora de sua sanidade. Os filhos não deveriam viver menos que os pais.

O destino, ou seja, lá que nome tente dar a atrocidades, inverteu a ordem das coisas. Mas uma vez as pessoas se sentiriam inseguras, comovidas e indignadas, mas o mundo continuaria seguindo sem se importar. A comoção tomou conta de mães, pais e filhos que choraram abraçados com perca daquela família, que até bem pouco tempo atrás não sabiam que existia. Somos solidários na dor.

As investigações tiveram início. Crime passional, por motivo fútil, concluíram. O algoz, o namorado da menina, um jovem de 18 anos que não aceitava o fim da relação. No decorrer das investigações, os jornais televisivos mostraram filmagens do assassino executando a vítima. Tudo aconteceu em frente a um posto de gasolina, em mais uma madrugada manchada por sangue de inocentes. A lua cheia presenciou tudo, mas nada pode fazer.

O rapaz foi preso, mas como não foi pego em flagrante responderia o processo em liberdade. Os pais de Sofia sentiram-se sem chão. Não é fácil perder a fé. Os pais, como forma de repúdio e descrença absoluta nas leis, apelaram para que o Estado deixasse de mão a investigação, até chegaram a pedir desculpas aos policiais que se empenharam na elucidação do crime. Se ao menos a lei não fosse cega, Sofia não teria sido ceifada de seu mundo.

Em carta aberta à mãe desabafou em rede nacional, falou que não acreditava na justiça, que não perdoava o assassino de sua filha, no entanto não queria que fizessem justiça com as próprias mãos, pelo contrário, gostaria que o rapaz permanecesse vivo para que todos os juristas, políticos, homens e mulheres que mandam no país sentissem vergonha do código penal e que, ao cruzarem com o assassino de sua filha, pudessem refletir por um só momento que à violência não escolhe: posição social, etnia, credo, faixa etária ou opção sexual e que os assassinos, e ladrões poderiam até estarem acima da lei, mas que ninguém é imune ao efeito devastador da violência.


Marcos Martins.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

DE VOCÊ QUERO APENAS OS ESPINHOS


DE VOCÊ QUERO APENAS OS ESPINHOS


Fique com as flores que colhi para você. Não, não me importo se as pétalas já estão murchas.

O fogo não queima mais, mas as brasas, essas malditas, ainda consomem vagarosamente meu coração tomando por pus (todo esse corpo que me encarcera).

Fique com tudo, não me devolva absolutamente nada. Não quero os sorrisos bobos, os sabores que experimentamos juntos, as danças, os sonhos compartilhados, as conversas sobre o futuro – como se houvesse um –, nossa musica ou os amigos que conhecemos. Não quero. Não quero nada que já foi tocado por você – todos te imaginam com mãos de Midas...

Fique com as festas de aniversários, os filmes baixados de forma indevida, todos os livros de filosofia que li e não entendi nada. Tudo é teu. Tudo é seu.

Fique onde está.
Fique com os sentimentos entorpecidos; com os beijos sem gosto de saliva; os abraços apertados; o calor dos corpos atrelados, tudo o que um dia me fez lembrar, agora que quero esquecer.
  
Fiques onde estás.
Fique onde não posso tocar – os poemas que angustiam e não afagam me consolam (coxa de retalho que desune).
Fique com as flores que colhi para você; com as pétalas das rosas, pois me sinto mais a vontade entre os espinhos que dentro de você. 


Marcos Martins.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O castelo

 O castelo


Degraus e mais degraus separam solidão e anseios.
Torres que tocam o umbigo do céu, altura, vertigem, meus devaneios.

Donzelas escassas, bruxas entediadas, reis loucos, rainhas que fingem sorrir, cavaleiros com suas espadas enferrujadas.

De que são feitos os castelos, se não de sonhos e ambições em ruínas. Kafka nunca encontrou a porta dos fundos do seu, entrou e perdeu-se em si.


Quero construir um castelo sem fosso, sem monstros para proteger a ponte levadiça. Não consigo. Tenho monstros dentro de mim.

Paredes sujas. Nobres que comem com as mãos. Soldados com olhares distantes e perdidos, traições, assassinatos e magos que não sabem transformar metal em ouro 
– Essas são as verdades ocultas nos castelos. Verdades que os nobres tentam esconder.

Tudo é um jogo. Quem morre; quem pode nascer; quem sobe ao trono; quem pelas mãos do rei deve viver.


Os calabouços estão cheios, o povo geme de fome, com dores de parto enquanto a realeza vai fazendo seus bacanais homéricos, sorrindo incestuosamente, mas com inveja de quem vive fora das muralhas, pois esses são livres, que corações encarcerados nunca poderão tocar.


Marcos Martins.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Poema

"Um dia pulei da ponte Duarte Coelho e vi um mundo vivo de dentro da lama. Voltei para a superfície da cidade cinza e vi um mundo morto de dentro do caos".

Marcos Martins.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Busca

Busca


O que é o pensar das coisas?
O que são as dúvidas?
Como responder as perguntas que ruborizam?
Como ser verbo, se não sou nem adjetivo?
Como fazer a coisa certa de uma perspectiva caleidoscópica?
Como é sentir o amor, sem interesses burocráticos?
De que osso foi feita a natura?
De que costela foi feita a incerteza?

Meus amigos, no auge de minha imaturidade, dizia que todas as preocupações, dúvidas e inseguranças eram balelas.
Meus amigos, no auge de minha maturidade, vos digo, caminhem e só, pois todas as preocupações, dúvidas e inseguranças são balelas. Nada como andar nu na chuva, correr então, isso é que é ser livre das amarras.

No auge de minha tola existência digo “A verdade é que não existem verdades”. A verdade; se insistem descortinar “É que fico dando sentidos novos a velhos poemas”.     

Marcos Martins.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O outro lado do mundo




O outro lado do mundo


O outro lado do mundo fica tão perto, fica tão rápido. É tão seguro  como o estável;
É tão seguro e associável.

O outro lado do mundo fica embaixo. Está tão perto do centro 
– como o trânsito  está tão perto de tudo e é tão rápido.

O outro lado do mundo;
O outro lado do mundo;
O outro lado do mundo, é limpo, é flácido, é egoísmo, é tudo pálido.

O outro lado da curva é mais uma curva desse lado;
O outro lado de tudo é outro lado 
– é o nada;
O outro lado do nada é o que resta do outro lado do mundo, do outro lado. Bem ao teu lado.

Bem ao teu lado é tão fantástico, como o massacre da vida e o estupro do verso ou o amarrar do cadarço, que é o outro lado dos pés, que andam tão rápido.

O outro lado do fim é o começo do acaso;
O outro lado do mundo fica ao lado do quarto.

Marcos Martins.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Poesia viva


Poesia viva


Sinto tanta poesia pulsando em minhas veias;
Sinto-as percorrer todo o meu corpo e se alojarem em meu coração.

Quero fazer um poetar errante, pulsante, que ecoe, ecoe e não pare nunca de ricochetear. Mas sou só um homem que vez por outra usa bermudas e sandálias de dedo, porém há algo. Eu sinto. Externo. Escrevo. Eu sinto.

Sinta! Pode sentir? Saem não sei de onde, passam por minhas veias, adentram meu coração e o faz bater, bater, bater... Então o milagre da vida é criando e meus dedos começam a traduzir o que o coração sente, vindo sabe-se lá de onde, mas não importa; escrever, criar, dar forma, vida é o que importa. Não importa saber de onde vem ou para aonde vai, o que importa é que vá, crie asas e seja fecunda.

Poesia presa é vida morta.


Marcos Martins.

sábado, 20 de setembro de 2014

ROTO


ROTO


Esse caos dentro do meu peito queima o que de bom já tive um dia. Drena o que de bom já plantei um dia. Afasta tudo o que almejei. 

Esse caos dentro de meu ser dilacera meus órgãos já tão castigados. Drena o que de bom já plantei um dia. Afasta tudo o que planejei.

Esse caos dentro de meus poros, me sufoca, asfixia meu pulmão – quase que total necrosado. Drena o que de bom já plantei um dia. Afasta tudo o que um dia já toquei.

Esse caos que circula em minha corrente sanguínea, intoxica minha alma, causando erupções em meu corpo roto. Drena o que de bom já plantei um dia. Afasta os sonhos que sempre sonhei.

Esse caos, ah, esse caos, que me mostra o futuro de minha humanidade – incomoda quando vejo o rastro que deixei. Drena o que de bom já plantei um dia. Afasta todo verbo que já conjuguei.

Um dia vou drenar todo o caos que o mundo produz – esse caos dentro de mim; de você –, essa tormenta – violência contida dentro de nossa essência -, que rasga, esfarrapa, danifica, dispersa tudo o que de humano podemos sonhar um dia ser.


Marcos Martins.

sábado, 13 de setembro de 2014

O DIA EM QUE O RECIFE AFUNDOU (conto)


O DIA EM QUE O RECIFE AFUNDOU


Desde menino Henrique tinha dois sonhos e um trauma: queria ser astronauta, era o primeiro sonho; destruir todas as pontes da cidade do Recife, o segundo; ter que atravessar as temidas pontes da Veneza brasileira todo santo dia era seu trauma. 

Quando menino, caíra da ponte da Boa vista e quase morrera afogado nas águas escuras do Rio Capibaribe. Ele tinha 7 anos na época e hoje, passados 23 anos, o pobre homem nunca conseguira esquecer a sensação de afogamento e o gosto que o rio deixou em sua garganta.

Sempre que passava por alguma das pontes do Recife suas mãos gelavam, sentia tontura e náusea. Chegou há levar 20 minutos na travessia de uma das pontes, causando um congestionamento. Certa vez chegou a travar no meio da ponte Maurício de Nassau e ficou agarrado a estatua do poeta Joaquim Cardozo por horas, só saiu de lá com a ajuda do corpo de bombeiros, depois de uma exaustiva negociação. Virou notícia nesse dia e por algumas semanas era reconhecido por onde passava.

Fosse a pé, de carro ou ônibus, não tinha importância, ter que cruzar qualquer uma das 49 pontes da cidade era um martírio. À medida que Henrique crescia, também crescia a vontade de explodir todas as pontes da capital pernambucana, pois dentro de sua cabeça, o que sustentava o Recife eram as pontes, sem ela toda a cidade afundaria. Mas explodir 49 pontes não é era coisa fácil de se fazer, então teve uma ideia brilhante, em seus devaneios acordado. Estudou a arquitetura do Recife e chegou a conclusão de que teria que destruir 12, das 49 pontes que tanto embelezavam sua cidade, que todo o Recife afundaria, pois as 37 restantes não aguentariam o peso da metrópole e sua agonia teria fim.

Henrique estudou por 5 anos quais pontes, de fato, sustentavam a cidade e concluiu que eram as: Princesa Isabel; 06 de Março; Duarte Coelho; Limoeiro; Boa Vista; Maurício de Nassau; Buarque de Macedo e a 12 de Setembro. Essas seriam os pilares de sustentação do Recife e se fossem postas a baixo, toda a cidade sucumbiria.

Conseguiu comprar dinamite, de uma forma que seria melhor ninguém ficar sabendo para não se complicar, pois existem coisas que não se deve ser explicada, como por exemplo: receita de bolo, doação para campanha eleitora ou verba de gabinete. 

Comprou alguns detonadores a controle remoto na internet alimentados por bateria de celular (hoje pode se construir um acelerador de partículas com material comprado em sites de compra on-line). Fez alguns testes no quintal de sua casa soltando rojões para ter a certeza de que que tudo daria certo (um louco prevenido por dois vale por um são). Ao soltar os rojões a criançada da rua ia ao delírio, Henrique só visualizava as pontes indo a baixo e sorria de forma aliviada.

Planejou tudo de forma metódica, esperou por um feriadão, para ter a certeza de que toda a cidade estaria vazia. Utilizou um barco para navegar pelo Capibaribe, para não levantar suspeita, e aproveitando um feriado que caia numa segunda-feira pôs o plano em prática. Durante dois dias conseguiu instalar dinamite em todas as 12 pontes que escolhera. Foram dois dias acordado a base de energéticos para dar conta de tudo.

Logo após colocar todos os explosivos, foi para o topo do prédio JK, dessa forma tinha a certeza de que teria uma visão privilegiada e assim poderia contemplar a concretização de sua façanha.

- Recife, eu te amo! – gritou do alto do prédio de forma sádica.

Esperou o sol nascer, porque queria que o astro rei presencia-se sua façanha. O Recife acordava de forma sonolenta, os ônibus ainda não iniciavam seus percursos, passando lotados de gente enlatada, não se ouvia o som de motores, nem a fumaça de canos de escapes dos automóveis que nos matando de forma silenciosa. Ele estava emocionado, suspirou e acionou os detonadores... Sentiu um silêncio dentro de si e então o som das explosões. Ao detonar os explosivos sentiu que todo o Recife pode ouvir o som, como se trombetas celestiais anunciassem o novo e uma lágrima se fez nascer.

Uma a uma as pontes foram postas a baixo. Então tudo se acalmou. Mas foi passageiro, pois estalos secos irromperem a paz falaciosa e toda a cidade começou a afundar. Henrique chorou no topo do JK quando viu o cinema São Luiz emergindo, a lama começando a tomar conta de tudo, a se misturar as ruas, vielas, cada canto - do Beco da fome ao Marco Zero.

Enquanto o Recife sucumbia, lembrou que havia deixado um barco, para a sua locomoção, ancorado ao pé da ponte da Boa vista, onde tudo havia começado, onde sua vida havia ganhado um propósito e agora não mais existia barco, pontes, Recife, propósito algum. 


Marcos Martins.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mais um de meus contos


 

A VERDADE ESTÁ NOS VERMES


Acordou as duas da madrugada e viu os vermes a lhe degustar. Não sabia onde estava, nem como sair dali. Não sentia dor, apenas desconforto e vergonha por estar sendo devorado vivo. 

Seu ventre aberto não exalava odor. Tentou fechá-lo – não teve êxito. Tentou levantar-se – faltaram-lhe pernas.

Pensou, pensou e pensou (nada em sua mente). Coçou a cabeça, sentiu o oco. Olhou para a mão encoberta por uma mucosa – sentiu enjoo. 

Refletiu: 

“Como posso não ter mais meu cérebro? Como posso pensar isso sem ter um cérebro?”

Sentiu sede, percebeu que não tinha mais língua. Quis chorar, seus olhos lhe abandonaram.

Depois de algum tempo viu que não poderia sair de sua escuridão, então, acomodou a cabaça nas trevas e começou a se sentir mais confortável com todos os vermes que lhe consumiam o corpo. 

Pensou:

“Como será que está o dia lá fora? Será que tem crianças correndo, flores desabrochando e pessoas sentindo minha falta?”

Passou a mão na cabeça novamente – sentiu alguns fios de cabelos – e ficou feliz por não ter mais seu cérebro, dessa forma, sabia que não pensaria mais em problemas fúteis. 

Marcos Martins.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Não é nada, é só um desabafo no deserto


Acho que um dos motivos que fazem com que o Brasil viva nesse entrave de crescimento (crescimento em todos os sentidos), acrescido da síndrome do estrangeiremos de compararmos tudo o que passamos aqui com o que existe lá fora do tipo: “Ah, se fosse nos Estados Unidos, não seria assim.” “Na Europa é diferente, todos lá são tão educado. E no Japão, então...” Me faz refletir que enquanto não soubermos cumprir as leis que nos são impostas, vamos sempre viver nessa rotina de sempre querer dar um jeitinho em tudo, de sempre querer usufruir dos direitos (nunca engolir os deveres) e viver com essa síndrome de Peter Pan de nunca crescermos como deveríamos crescer. Porque estou dizendo isso devem estar se perguntando, ou quem sabe até nem queiram saber, mas explico mesmo assim. Ao informar um aviso, onde todos deviriam cumprir uma norma estabelecida, recebo a seguinte pérola: “Isso é muita frescura.” 

Queremos tudo: melhores hospitais, educação de boa qualidade, um País mais justo, sem corrupção e sem violência (por mais que ela esteja canalizada em nós), mas em troca o que damos? Um sonoro: “Isso é muita frescura!”

Como disse um amigo meu certa vez: “O Brasil é um país feito por todos nós. Só falta desatar esses nós para que possamos fazer jus ao trecho de nosso belo hino: Gigante pela própria natureza”.

Marcos Martins.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

BUSCA

Uma antiga poesia em uma nova couraça.


BUSCA 


O que é o pensar das coisas?
O que são às dúvidas?
Como responder as perguntas que ruborizam?
Como ser verbo, se não sou nem adjetivo?

Como fazer a coisa certa de uma perspectiva caleidoscópica?
Como é sentir o amor, sem interesses burocráticos? 
De que osso foi feita a natureza?
De que costela foi feita a incerteza? 

Meus amigos, no auge de minha imaturidade dizia que todas as preocupações, dúvidas e inseguranças eram balelas – temos todas as respostas para o mundo quando somos jovens.

Amigos, no auge de minha maturidade, vos digo: “caminhem e só, pois todas as preocupações, dúvidas e inseguranças são balelas – temos toda a paciência do mundo quando a juventude não nos toca como antes”.

No auge de minha tola existência digo: “a verdade é que não existem verdades. A verdade se molda a nossos interesses, mas nunca se descortina por inteiro”. 

Não sei por que fico dando sentido novo a poemas esquecidos, mas é isso o que faz com que tudo me faça sentido. 

Busco o que todos buscam;
Encontro; 
Toco;
Volto a sentir esse vazio cósmico no meio umbigo.   

Marcos Martins.

domingo, 31 de agosto de 2014

E SE



E SE

E se eu tivesse sorrido mais – hoje ela seria minha;

E se eu não tivesse dormido – hoje eu teria visto o final daquela série que nunca mais vai passar (mesmo que passe, não vai ser a mesma coisa);

E se eu não tivesse corrido para pegar o ônibus – não teria sofrido aquele assalto que me deixou com um galo na testa e desmoralizado;

E se eu não tivesse sofrido – hoje minhas lágrimas não teriam borrado minha maquiagem e estragado horas de dedicação;

E se eu a tivesse beijado – teria o gosto eternizado de seus lábios nas lembranças de minha história;

E se eu não tivesse bebido – não teriam feito toda aquela cena, naquela festa onde todos meus conhecidos estavam;

E se eu não tivesse saído na chuva – não teria pego aquela resfriado que me deixou de cama por cindo dias;

E se não tivéssemos escolhido nossa musica – não sofreria mais sempre que a ouço;

E se eu tivesse escolhido o lado esquerdo, por mais sedutor que o direito se apresentou a mim – não estaria perdido; 

E se eu não tivesse dito todas aquelas sandices – hoje te teria ao meu lado meu irmão-amigo; 

E se eu não estivesse entrado ali, aqui, acolá – não teria me ferido, não teria essas marcas;

E se eu não tivesse essas marcas – não teria vivido;

E se eu tivesse vivido menos em meu quarto escuro – não teria lido todos esses livros que me mostraram mundos, vidas (me marcado a alma);
E se eu tivesse escolhido outro caminho – tudo poderia ter sido diferente, tudo poderia ter sido o que não foi, poderia ter deixado de ser o que já foi (tudo não seria tão pretérito imperfeito do subjuntivo);

E se eu não tivesse vivido todos esses “sis” – não faria a menor diferença para meu destino;  

E se eu não tivesse vivido como vivi – não seria o que fui (nada ficaria no campo subjetivo).     

No fim, só torcemos para que a viajem valha apena. 


Marcos Martins.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Poema 09




Poema 09



Hoje senti uma coisa estranha – o estável.
Mal pensei nos problemas, nos meus pelo menos, ouvi o dos outros, meio que de longe, meio que discreto, descrente.

A felicidade vai e vem, porque não fica para sempre? Por que foge derrepente sem nos dar explicações? Nos larga como a uma coisa fácil de conquistar, tão fácil que logo perde o interesse em nós. (A felicidade não se importa quando não nos toca mais).

Se não for para ficar para sempre, me deixe viver; 

Se não for para ficar para sempre não tente me tocar.




Marcos Martins.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Apóstata


Apóstata


Dê-me motivos para sorrir para você;
Dê-me motivos para falar com você;
Dê-me motivos para sangra por você - já que ninguém entende o que fiz;
Dê-me motivos para perdoar-te;

Dê-me motivos para não querer descer dessa cruz;
Dê-me motivos para querer sangrar por teus filhos;
Dê-me motivos para ligar para teu choro angustiado em noites friamente solitárias;
Dê-me apenas um motivo que faça valer a pena respeitar seu egoísmo.

Meus sonhos foram tirados de mim. Minha vida foi dada em holocaustos a canibais famintos que palitaram os dentes após a refeição – como se nada fosse mais importante que saciar a fome da carne.

Pai! Porque sangrei por todos eles?
Pai! Porque não matamos todos eles?

Diga-me quais as verdadeiras razões para tanta reza individual, que talvez te olhe nos olhos sem sentir vergonha de ti.

Sinto cheiro de dor, sinto cheiro de ódio, sinto o cheiro do corpo do deus morto no quarto ao lado (apenas mais um troféu que foi conquistado e esquecido). 

Cansei de acreditar; de pastorear ovelhas que teimam em se perder. Cansei.

Nada do que você diga vai me convencer a aceitar as dores do mundo e as mortes que julgou serem feitas para mim.

Quis apenas subir na cruz para poder ver do alto, para poder ver o que tinha depois do firmamento e agora o que me faz continuar aqui perdeu o sentido.

Seu amor mentiroso não me convence mais.



Marcos Martins.