Com Cecílio Martins a poesia se apresentou de uma forma que até então para mim era desconhecida, sempre que releio este livro, sinto que foi realmente Cecílio quem o escreveu, usando apenas minha mão e deixando meu cérebro dormente e totalmente bloqueado para o tipo de poesia que costumo escrever.
Até que ponto o preconceito pode arruinar um homem, Cecílio Martins sente na pele o que muitas vezes tentamos esconder.
Trabalha no escritório de contabilidade herdado por seu tio que morre de câncer um ano depois de seu casamento; sua tia é internada num hospício louca, por achar que é a virgem Maria depois da morte do marido.
Tem um filho que nasce deformado e morre após três dias de nascido. Louco, começa a culpar Deus por sua infelicidade e no dia 29 de outubro de 1935 aos 23 anos de idade perto de completar seus 24 anos é encontrado morto, totalmente despido e com um diário em sua mão esquerda melada ainda com sangue, decapita seu pênis e o coloca por sobre a bíblia sagrada.
Dois anos depois de sua morte é encontrado num cômodo secreto de sua casa três livros escritos com sua assinatura, são eles: o primeiro é o livro de poesias intitulado “Deus e o diabo me odeiam”, o outro é o romance homossexual inacabado “Todas as bocas que desejei”, e por fim o livro de poemas “Poemas que me forçastes a fazer”.
Todos os livros com forte teor de homossexualismo e revolta por todo sofrimento emocional que ele sentia.
Ainda era noite e eu me sentia dia;
Ainda era açoite e eu nem mais me sentia.
Cecílio Martins.
Meu doce azedume, minha vã vida derradeira, meu espaço mínimo, minha tortura não passageira, és escárnio de minhas vísceras.
Ó! Sorte derradeira!



