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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

SURREALITÉ



SURREALITÉ 



Estou sonhado... Estou acordado... Estou sonhado. 
Estou existindo dentro de um quadro pintado com tintas frias.

As mãos não servem apenas para criar;
(Servem para expor o mal nos homens)
As mãos não servem apenas para tocar; 
(Servem para castrar sonhos).

Ó, doce amuleto que para mim não tem serventia, pois sou um cético incorrigível que ao observar o sol – esse astro rei imponente – vê apenas algo queimando num lugar sem oxigênio, não o belo de algo que nos aquece o corpo e dos poetas o coração.

Estou andando e não sinto minhas pernas – que já não são mais minhas;
Estou dormindo e não consigo mais sonhar – cérebro que não me dá condições de divagar em terras férteis;
Estou vivendo morto por dentro; 
Estou destruindo o castelo que construí para morar.

Ao contemplar o céu na noite calma ou de tormenta, não vejo estrelas, vejo apenas pontos tristes – lágrimas amargas –, lembranças secretas que o presente não pode tocar.

Estou sonhando... Estou acordado... Estou chorando... Estou sem estar.  


Marcos Martins.

domingo, 27 de dezembro de 2015

O CORAÇÃO É TEU INIMIGO



O CORAÇÃO É TEU INIMIGO 



Não escuta teu coração – esse verme que engana até o mais cético dos céticos.
Não, não escuta esse órgão demoníaco que só serve para nos enganar.
O cérebro, esse sim, é um amigo verdadeiro que não te trai não te leva a abismos infinitos.

Não, o coração não é um bom lugar para se estar em noites de chuva, em noites com luar, prefira um café quente ou dançarinas de cancan, nunca esse órgão a lhe esmurrar.

Não, não queira ter amizades com ele, não lhe dê liberdades, nem regalias, queira distância, não o cumprimente pela manhã, deixe-o fazer seu trabalho e só.

Quem quiser ter um dia péssimo se socialize com esse sujeito, por isso eu digo, reafirmo e reafirmo: Não escuta teu coração, porque ele te leva a lugares perigosos, a pistas sem faixas para pedestres ou semáforos, a tormentas que não findam.

O coração foi inventado para que nos sintamos sós. Deus poderia ter colocado um relógio, uma pedra ou um caroço de manga em nosso peito, mas não, preferiu esse músculo que nos esmurra por dentro. 

O coração é meu pior inimigo;
O coração é o que de mais temo dentro dos meus extintos;
O coração, esse lugar desprotegido que me faz agonizar nas noites só de domingo.
Coração, coração, coração, inimigo que me habita, inimigo que me mutila, inimigo da razão.

Marcos Martins.

domingo, 20 de dezembro de 2015

É APENAS POESIA


É APENAS POESIA


Não se assuste querida é apenas poesia.
Não, não tenha receio de me dar à mão e juntos pularmos por sobre a lua.
Não tenha medo querida é apenas meu Eu lírico gritando essas coisas sem sentido, dizendo que está morto e se sente vivo apenas quando está dormindo.

Não, não sou a poesia que escrevo, mas sinto dor, medo e tenho lampejos, mas é tudo controlado – assim como os parnasianos faziam.
Não quero uma bebida, se bem que um bom vinho cairia bem.
Não se assuste querida é apenas a poesia saindo de meus poros. Sim, o poeta é um fingidor, mas a dor é deveras que respingar na alma.

Não sei por que meus dedos doem, não sei por que escrevo se poesia não é lida e se ninguém quer lançar um poeta vivo.

Tudo bem vou ter cuidado ao atravessar aquela rua sem semáforo, prometo olhar.
Não posso deixá-lo ir, onde ele habitaria?

Não amo mais meu Eu lírico que você querida, mas é de cumplicidade que estou falando, não de fluidos.

Tenho que continuar escrevendo, não importam os motivos, não sou eu é meu Eu lírico.

Não sei como vai terminar essa poesia e para falar a verdade não me importo, pois o que importa é fazer nascer à poesia, nada mais importa.


Marcos Martins.


sábado, 29 de agosto de 2015

Mais um trecho de meu livro: "Relatos de uma Vida ausente - O que não confesso nem ao anjos", onde conto a história de Carlos, um cara acomodado com sua vida que a tem mudada de forma radial apos a morte de sua mãe, uma quase estranha para ele, mesmo dividindo o mesmo teto com ela a mais de 30 anos. Hoje da página 11 até a 15. (caso queiram ler as 10 primeiras é só vistar meu perfil, que postei a uma semana mais ou menos.



(...)
Finalmente chega ao outro lado da pista, consegue cruzar o caminho dos donos das estradas são e salvo e toca a calçada com cheiro de urina, porém segura. Para se vingar de todos esses anos de coação, num ato impensado e inesperado, ergue a mão esquerda, de costas para os carros e de frente para uma loja de CD’s que estava fechada, pode ver sua imagem refletida na vitrine da loja, e os carros em suas costas, ele se pergunta: “Quem ainda compra CD’s?” Não importa. E de costas para a pista, para os carros, para seus problemas, com o braço erguido o mais alto que pode, estica o dedo anelar: “Eu os saúdo, filhos de uma puta!”, diz em voz alta, quase gritando e consegue perceber a reação de ódio dos motoristas, consegue ver seus semblantes distorcidos pelo reflexo da vitrine da loja. Senti em suas costas, em forma de calafrio, à vontade por parte deles de passarem com seus carros por cima de seus ossos. Abaixa o braço, sorri, e segue sem olhar para trás, com a sensação de dever cumprido. O ronco dos motores não o incomoda mais.

***

Carlos tinha 35 anos e um emprego medíocre em uma papelaria chamada Paulina, de mesmo nome da filha do dono, o senhor Francisco, um homem que ao sair do emprego investiu todas as economias na realização de seu sonho, mas que não tinha muito tino para os negócios. Na verdade não tinha tino algum.

Carlos sempre tinha que explicar do que se tratava seu ramo, pois sempre achavam, pelo fato dele trabalhar em uma papelaria, que lidava com coisas de gráfica, então, pacientemente, explicava que seu emprego não tinha nada haver com gráfica e sim com a venda de artigos para escritório, informática e até produtos de limpeza. E assim ele seguia seu dia trabalhando como uma espécie de lã de aço de mil e duas utilidades. Era encarregado das contas a pagar, de dar entrada em mercadorias e quando a coisa apertava saia para fazer entregas. Era a parte que ele mais adorava, pois podia sair da rotina enclausurante da papelaria e se sentir a materialização da utilidade. Sempre que tinha que fazer uma entrega se sentia bem, como se estivesse fazendo um bem à humanidade, mas sempre que voltava, havia uma pilha de coisas para fazer de suas atribuições, porque ninguém, nunca, o ajudava. Ele sempre ajudava a todos.   

O Senhor Francisco era um homem singular, não por sua genialidade e sim por sua falta de expressividade. Era um homem de estatura média e Q.I um pouco menor. Alguns funcionários diziam que ele era simplesmente o cara que assinava os cheques e enxergava os vendedores como se fossem cifrões, nada mais.

Carlos já trabalhava na papelaria a mais de dez anos, porém, tinha apenas três anos de carteira assinada. Sua vida não era fácil no trabalho, mas a de quem é quando se trabalha simplesmente para se pagar as contas. O trabalho foi inventado como forma de castigar os sonhadores, os artistas e boêmios que sabem apreciar boa cerveja e a companhia de prostitutas que sabem sorrir e não cobrar nada por isso. Carlos entendia de prostituas, não entendia de cerveja, mas de prostitutas sim, foram elas que lhe ensinaram tudo depois que seu pai se foi. É. Carlos teve um pai que foi embora, mas ele não sentia a falta de seu velho, pois sempre foi ausente, mesmo quando estava lá, na sala, assistindo a programas dominicais que exploram a desgraça alheia e mostram bailarinas sensuais em roupas que ficariam curtas em meninas de seis anos.

Inconscientemente ele adotara o Senhor Francisco como um pai, era por isso que aguentava tanta injustiça vinda do patrão. Além de ser um faz tudo na papelaria, ainda tinha que limpá-la aos sábados. Todos os funcionários folgavam nesse dia, menos Carlos que ia para o trabalho limpar os produtos de escritório, informática e limpeza. E isso era o mais irônico de tudo, ter que limpar produtos de limpeza, ter que limpar garrafas de detergente e de sabão em pó. Os clientes não aceitavam receber mercadorias empoeiradas e o Senhor Francisco achava que se o produto fosse coberto de poeira, seria desvalorizado. O pior de tudo era que a papelaria ficava em uma avenida movimentada, onde carros, ônibus e até veículos de tração animal não paravam de circular, então era impossível não acumular poeira ao longo da semana. E o trabalho se tornava duro, sujo, cansativo.

***

O sol já despontava menos tímido. Pessoas começavam a circular com mais frequência e frenéticas passavam umas pelas outras sem darem bom dia, sem se olharem nos olhos. Quem se importa com estranhos que não estão nos programas dominicais? Carlos segue para a próxima parada de ônibus “Ser pobre é uma merda”, pensa. Ao chegar à parada, vê algumas crianças cheirando cola – o cartão postal que todo político gostaria de por em baixo do tapete persa –, ele fica entretido com a felicidade entorpecente dos garotos de rua, sente uma ponta de inveja, não sabe o porquê, mas se sente com inveja dessa liberdade, por mais faminta e entorpecida que possa ser. Eles podem voar e Carlos preso ao chão, preso a sua vida insípida. 

Por sorte o ônibus chega logo, ele sobe. Vagueia com os olhos. Não há lugar para sentar. Vai em pé toda a viagem, mas não acha ruim, dessa forma pode apreciar a vista, as formas, o concreto, o asfalto cheio de emendas mal feitas, os não lugares e pessoas que passam, passam e passam sempre apresadas; quanto a ele, não há pressa, a menos que sua mãe comece a cheirar mal, mas ela está bem guardada, levará algum tempo até quererem enterrá-la como indigente ou a exalar algum odor. A vontade de estar se dirigindo para outro lugar o toma e um calafrio aponta do meio de suas costas “Não consigo imaginar como ela está”, diz para si. Não consegue chorar. Talvez seja o ônibus cheio, talvez seja a poluição ou um vírus que os países europeus tenham lançado na América Latina, quem vai saber dessas coisas. O que sabe é que gostaria de estar sonhando, mas sonhar tem sido cada vez menos permitido. 

O ônibus corta a cidade, pessoas sobem, descem, voltam a subir em outros coletivos – nossas vidas passam – e por vezes os motoristas queimam as paradas, então você é privado de descer, de subir, de viver, mas nunca de morrer. Felizes são os que morrem velhos, já lhe disseram várias vezes, mas Carlos não via vantagens em envelhecer. Os velhos só são respeitados por financeiras e essas não têm coração. Envelhecer foi o castigo de Deus para com a maldade humana, era nisso que Carlos acreditava, mas mesmo com esses pensamentos conflitantes ele amava a mãe, não a tratava mal, ele amava sua coroa, como a chamava carinhosamente em segredo, apesar de todo o distanciamento. 

O câncer em sua mãe não havia devorado apenas seus órgãos, também devorava Carlos, e Carlos que sonhava em ser vegetariano sabia que, assim como a progressão do câncer, não poderia voltar e concertar os copos quebrados. A verdade era que sua mãe havia morrido e seu único filho tinha desaprendido a chorar em alguma parte de sua existência.

Finalmente um lugar surge no ônibus, Carlos anda até a cadeira que parecia lhe sorrir, mas logo descobre que não, ela não estava rindo para ele e se dele, pois logo atrás havia uma mulher grávida, com olhos de cobiça. Ele nem bem se senta logo se levanta e cede o lugar para grávida, que é bom ressaltar, nem o agradece.

“Obrigado, otário”, pensou enquanto olhava a grávida que virou o rosto para o lado sem se importar com quem havia lhe proporcionado uma viajem menos dura. A cordialidade havia se tornado um artigo de luxo e os humanos aprendiam cada vez mais a se isolarem dentro de seus mundos particulares. 

Sua parada estava chegando – seu destino –, ironicamente a mesma parada onde havia vomitado quando criança, em um dia de domingo de sol. Ele não estava preparado para presenciar o fim da chama. Mas quem está? Você?

“Vai descer!”, gritou porque o motorista, por estar conversando com uma mulher que ria de qualquer coisa que ele lhe falava, não tinha notado que Carlos havia pedido parada.

Da parada onde descera até o hospital eram cerca de dez minutos de caminhada, mas naquela manhã foram vinte e um. Carlos seguia de cabeça baixa, ombros curvados e o maior vazio na alma. O sol o olhava e quase sentia pena daquela figura diminuta que seguia em linha reta ao encontro de sua verdade. Parou em frente ao hospital. Fica olhando, não com um olhar de contemplação, pelo contrário, reluta em entrar, mas não há como fugir, não depois de ter vivido tanto tempo com aquela mulher, não seria certo.

“O que a senhora está me fazendo fazer, mãe”, se questiona. “Vamos lá Carlos, segue rapaz”, fala para si, tentando criar coragem.

Por um instante suas pernas enrijecem. Não queriam estar ali. Todo o corpo não queria, mas a cabeça comanda o corpo e a ordem é dada: “Ande! Siga! Vá ver sua coroa morta, seu merda”. Seu corpo continua parado enfrente ao hospital, não quer obedecer ao comando. Sentiu o cheiro dos remédios, do formol e da morte, nada mais comum, mas naquele dia o cheiro lhe incomodava, pois sabia que o cheiro da mãe também estava ali, entranhado nas paredes, corredores, cadeiras quebradas, macas, nas batas dos médicos e até no banheiro. Isso daria um bom livro, pensou, mas quem ainda lê livros hoje em dia, se questionou. Você?
(...)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Lânguido


Lânguido


Há dias e a dias em minha vida;
Há vida e a dias sem vida em minha existência; 
Há dor e há amor contido em meu ser;

Por todos esses caminhos que trilhei, esse que resolvi seguir foi o que menos me orgulhei – não se deve sair a esmo, pois se você se perde não se acha nunca mais.

Bússolas já não me servem;
Faróis para me guiar por entre minhas tempestades também não – Só me restou um pequeno espelho para que eu possa perceber que cada dia a mais, me vejo menos.

Há dias de luta, a dias que não quero mais lutar e fico tentado a partilhar com a derrota minha vida sem glórias, sem motivos para sonhar.

Sei que já disse isso antes, mas: tentar, tentar, tentar. Desistir. Voltar a tentar.     


Marcos Martins.

***

OBS.: as frases que deveriam ser escritas com “há”, para indicar o sentido de existência ou passagem de tempo as escrevi, propositalmente, apenas com um “a”, para indicar a total falta de perspectiva que está contida na poesia. Utilizei a licença poética para atropelar a gramática (que os gramáticos possam me perdoar um dia e que os linguistas possam me abençoar).

O final da poesia termina com uma ponta de esperança, já que no poema o ser poético sente, por menos que seja, amor. Isso pode ser encarado como uma contradição, mas o que é a vida senão uma grande concha contraditória, tecida com linhas de esperanças por amanhã menos cinza.     

Essa poesia é para se ler, ver e sentir.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

MEU ÚLTIMO DESEJO


MEU ÚLTIMO DESEJO


Quantas vidas uma pessoa pode ter em um único dia? – Milhares ou nenhuma.

Minhas pernas não chegaram aonde eu queria, mas é preciso continuar a caminhar, assim como é preciso respirar, alimentar-se, fingir sorrir, fingir se alegrar, sonhar e ter medo.

Mais um ano que se esvai e a poeira do tempo incomodam-me os olhos, que antes estavam tão abertos e agora lutam para não fecharem.

Lembro-me do tempo em que enchia o peito com esperanças por um ano novo melhor, com menos mortes e ódio, com menos dor e mais altruísmo, mais amor ao que não é o meu umbigo.

Agora que mais um ano se esfarela, e logo, logo, todas as rádios entoarão cânticos momescos – para esconder, para por embaixo do tapete todas as coisas não concretizadas, todas as promessas não cumpridas, toda força em vão, tudo o que ficou apenas idealizado em plantas baixas... Eu sei, eu sei, eu sei do outro lado do mundo há algo bom e altivo para todos os que pronunciaram poucas vezes a palavra “Não”.  

Meu último desejo, antes do badalar da aurora que logo vai se apresentar, é não ter mais desejos para meu corpo todo dilacerar.


Marcos Martins. 

sábado, 14 de junho de 2014

Conto: O DIA EM QUE O RECIFE AFUNDOU


Foto google: Ponte da Boa vista (Recife)

O DIA EM QUE O RECIFE AFUNDOU


O DIA EM QUE O RECIFE AFUNDOU


Desde menino, Henrique tinha dois sonhos e um trauma. Queria ser astronauta era o primeiro e o segundo era poder destruir todas as pontes da cidade do Recife. Henrique tinha trauma de atravessar as temidas pontes da Veneza brasileira, já que, quando menino, caíra da ponte da Boa vista e quase morrera afogado, nas águas escuras do Rio Capibaribe. Ele tinha 7 anos na época e hoje, passados 23 anos, o pobre homem nunca conseguiu esquecer a sensação de afogamento e o gosto que o Rio deixou em sua garganta.

Sempre que passava por alguma das pontes do Recife, suas mãos gelavam, sentia tontura e náusea, chegava há levar 20 minutos na travessia, sempre segurando no parapeito das pontes, gélido.  Certa vez chegou a travar no meio da ponte Maurício de Nassau e ficou agarrado a estatua do poeta Joaquim Cardozo. Só saiu de lá com a ajuda do corpo de bombeiros, depois de mais de 2 horas de negociação.

Fosse a pé de carro ou de ônibus, não tinha importância, ter que cruzar qualquer uma das 49 pontes da cidade era um martírio. À medida que Henrique crescia, também crescia a vontade de explodir todas as pontes de sua capital, pois em sua cabeça o que sustentava o Recife - sem deixar que afundasse - eram as pontes. Mas explodir 49 pontes não é uma coisa fácil de fazer, então teve uma ideia brilhante em seus devaneios, teria apenas que destruir 12 das 49 construções que tanto embelezavam a Veneza do Nordeste, seriam as 12 pontes, os 12 pilares de sustentação e se assim o fizesse todo o centro iria submergir.

Henrique estudou por 5 anos quais pontes, de fato, sustentavam a capital pernambucana e concluiu que eram as: Princesa Isabel; 06 de Março; Duarte Coelho; Limoeiro; Boa Vista; Maurício de Nassau; Buarque de Macedo e a 12 de Setembro. Essas seriam os pilares de sustentação do Recife e se fossem postas a baixo, toda a cidade sucumbiria e sua angústia teria em fim um fim.

Conseguiu comprar muita dinamite, de uma forma que seria melhor ninguém ficar sabendo para não se complicarem, pois existem coisas que não se devem dar explicações, como por exemplo: receita de bolo ou verba de gabinete. Comprou alguns detonadores a controle remoto, alimentados por bateria de celular, em um site de compras on-line. Fez alguns testes no quintal de sua casa soltando rojões. A criançada ia ao delírio a cada rojão lançado, e Henrique só visualizava as pontes indo a baixo e sorria de forma aliviada.

Planejou tudo de forma metódica, esperou por um feriadão, para ter a certeza de que toda a cidade estaria vazia. Utilizou um barco para navegar pelo Capibaribe, para não levantar suspeita, e, aproveitando um feriado que caia numa segunda-feira, começou a por em prática seu plano perfeito. Durante três dias conseguiu instalar dinamite em todas as 12 pontes que escolhera. Foram três dias acordado a base de energéticos para dar conta de tudo.

Logo após colocar todos os explosivos, na segunda à noite, foi para o topo do prédio JK, dessa forma tinha a certeza de que teria uma visão privilegiada e assim poderia contemplar a concretização de seu sonho.

- Recife, eu te amo! – gritou do alto do prédio.

Esperou o sol nascer, porque queria que o astro rei presencia-se sua façanha. Recife acordava de forma sonolenta, os ônibus ainda não iniciavam seus percursos, passando lotados de gente enlatada, não se ouvia o som de motores, nem a fumaça de canos de escapes tentando fugir da cidade. Ele estava emocionado, suspirou e acionou os detonadores, fez um silêncio e então o som das explosões chegou a seus ouvidos, como que o canto de um passarinho dando-lhe "Bom dia", na janela de seu quarto. O som das explosões fora tão alto e violento que todos os moradores da região metropolitana puderem ouvir; para alguns parecia o som de trombetas celestiais anunciando o fim e o novo.

Uma a uma as pontes foram postas a baixo e após estalos agudos, o Recife começou a afundar, de forma sonolenta, da mesma forma que todos acordam pensando na luta que vão ter enfrentar.

Henrique chorou no topo do JK quando viu o cinema São Luiz afundando. E enquanto o Recife sucumbia uma preocupação surgiu - o fato de ter que molhar a roupa nova que havia comprado para a ocasião solene -. Lembrou que o barco havia ficado ancorado na ponte da Boa vista, onde tudo havia começado, onde sua vida havia ganhado um propósito e agora não mais existia: barco, pontes, Recife, propósito algum.        
   

Marcos Martins.






sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mais um trecho de meu livro Lugar Nenhum - Paraíso Distópico



O ar daquela casa me sufocava, não conseguia respirar, não conseguia raciocinar lá dentro, todo o ambiente me oprimia, me encarcerava.

– Lázaro! – grita Ainá tentando me fazer parar.

Não conseguia ouvi-la bem, mas pelo tom de sua voz sabia que ela queria que eu a esperasse, no entanto só me vinha à vontade de sair daquela casa, de sair de perto daquele homem bêbado que me fizera toda aquela confissão. À medida que tentava alcançar a porta ia ficando sem forças, mais e mais sufocado, já não conseguia enxergar bem, à vista estava turva e tudo começara a girar, lembro que cheguei a tocar com um dos dedos na maçaneta da porta, depois, escuridão.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas foi tempo suficiente para que o senhor Gildo ficasse mais sóbrio, ele me olhou de forma dócil, ergueu uma caneca com café quente e depois mudou o semblante, ficando austero.

– Você está bem garoto? – perguntou-me, acenei com a cabeça dando a entender que sim.

Ainá se aproximou de mim e me abraçou. Estávamos no quarto do Senhor Gildo, era um quarto simples, tinha uma cama de casal, que eu estava deitando, um criado mudo, um guarda-roupa sem portas, que deixava as poucas roupas que tinha a mostra, e muitas lãs de aço espalhadas pelo chão.  

– Onde estão os outros? – perguntei a Ainiá ainda convalescente.

– Espalhando mais lãs de aço e chapas de metais por toda a casa – respondeu o senhor Gildo se antecipando.

Podia sentir em sua voz que o esforço de Gabriel e dos outros era em vão, só não entendia o porquê dele deixa-los desprender toda aquela energia.

– Precisamos conversar filho – falou o homem pondo a caneta em cima do criado mudo.

– Sou todo ouvidos.

– Não na frente dela.

– O senhor me fala tudo agora, eu conto tudo a ela logo em seguida, então não percamos tempo.

– Tudo bem, mas acho que após ela me ouvir, não terá uma noite de sono tranquilo. – falou num tom ameaçador e ao mesmo tempo preocupado – Isso tudo é bem maior do que você pensa – continuou, – quando eles começam esse processo, só param quando tem aquilo o que querem.

– Com o senhor foi assim? – pergunto. 

A pergunta abala o velho homem que segura à mão esquerda, que começa a dar espasmos involuntários.

(...)

domingo, 20 de abril de 2014

Trecho de meu livro "Lugar Nenhum - Paraíso Distópico"



Lá estávamos nós três, bem enfrente a casa do homem que poderia por um fim a minha angústia, que poderia por fim aquela incógnita que me sufocava os sentidos, que me causava pavor.

– Porque você não nos disse que ele morava perto de tua casa – questionei Gabriel.

– Se eu tivesse dito você viria aqui sozinho e pelo o pouco que conheço o senhor Gildo, ele iria te escorraçar daqui feito um cão sarnento – continuou olhando para mim de forma serena – E você nunca me contou essas cosias ai que você sentia nem esse lance das luzes, nem nada... E o que ele tem a dizer é difícil de acreditar, por mais filmes de ficção cientifica que você tenha assistido, por isso nunca contei a vocês, para não ser tachado de ridículo.

Olho para Gabriel ainda mais intrigado – o que teria a ver minha situação com ficção cientifica? – Se tivesse que definir minha vida, definiria como um filme de terror como Poltergeists ou da forma como estávamos ali, parados enfrente a casa do senhor Gildo, com aquele poste do nosso lado esquerdo a nos iluminar, deixo tudo o que a luz não consegue tocar em uma penumbra melancolicamente perturbadora, diria que tudo estava conspirando para minha situação se assemelhar a um filme sobre exorcismo. 

Abrimos o portão, que rangeu como um lobo uivando para a lua, e entramos na casa do homem – pelo menos na primeira etapa que era o quintal ainda estávamos vivos, apesar do coração aflito. O quintal era bem peculiar – para não dizer estranho –, pois estava cheio de placas de metais espalhadas por todo o lugar. Uma grade pintada com uma tinta que já fora azul algum dia, mas que agora estava descascada nos impedia de chegarmos até a porta da frente, só que Gabriel já conhecia o homem e como chama-lo; esticou o braço e foi tateando pela parede até alcançar uma campainha que, assim que a sentiu entre os dedos, de pronto a tocou.

– Será que ele está em casa? – perguntou Ainá com as mãos juntas ao peito.
– Está sim, não ia me sacanear, ele mesmo estipulou esse horário da noite. Deve estar vindo nos atender logo.

Gabriel toca mais uma vez a campainha, mas notei que nós não conseguíamos ouvir som algum, minha esperança era que o senhor Gildo estivesse a ouvindo de dentro da casa, que ela estivesse sido instalada em algum cômodo que ele passasse mais tempo.

– Acho melhor irmos – disse Ainá visivelmente perturbar com a atmosfera do lugar.

– O filho da mãe me deu um bolo – disse Gabriel com um pouco de raiva em seu olhar.

– É melhor irmos – falei desconsolado, baixando os olhos.

Fomos dando meia volta, quando o som de trancas se abrindo irromperam o silêncio desconfortante que pairava no ar. A porta se abre e em nossa frente uma figura de estatura mediana, magra, de uma palidez que só vemos em doentes febris se apresenta; seu rosto, de formato hexagonal dava um tom exótico a sua aparência, que se acentuava devido a seus olhos tristes e profundos e um semblante de desesperança crescente que lhe acometia. O senhor Gildo estava no auge dos seus setenta e quadro anos, mas aparentava ter bem mais. O tempo parecia ter-lhe castigado mais que o normal. 

(...)
Marcos Martins.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Conto: Dilema profano



Dilema profano

Dentro de um porão, iluminado apenas pela luz do sol radioativo, um home faz os preparativos para sua morte programada. Arrasta uma cadeira, na penumbra do lugar, até tê-la embaixo de uma viga de madeira, pintada com óleo queimado por causa de cupins, que deixaram apenas o rastro de que já moraram ali e nada mais. Satisfeito com o posicionamento estratégico da cadeira, cuida logo de providenciar uma corda feita com restos de trapos que já foram roupas de homens que hoje jazem esquecidos.

O mundo como conhecia havia sido assassinado. De dentro de seu porão, melancolicamente úmido, podia ouvir os gritos de selvageria de homens que se digladiavam, canibalizavam-se e desaprenderam a sorrir. A natureza se devora de um jeito ou de outro.

Sobre uma mesa cheia de latas de ervilhas, feijões, carne enlatada e um casal de baratas, a última seringa com alguns ml de insulina - o que lhe matem vivo naquele inferno – repousava, privando-o do paraíso, paraíso esse que acreditava cegamente, mesmo depois dos homens terem deixado de acreditar.

Sacos e mais sacos de fezes se espalhavam pelo lugar que tinha pouco mais de 2 metros quadrados e possuía um complicado mecanismo de ventilação para que o ar não apodrecesse lá dentro, como se o ar de fora fosse menos venenoso.

Na vida, antes de toda aquela loucura, sonhara em ser escritor, conseguiu realizar o sonho e lançou um livro, um livro de 400 páginas que nunca seria lido por ninguém e que, hoje, suas folhas serviam exclusivamente de papel para libar sua bunda. Caixas e mais caixas de seus livros amontoavam-se uma em cima da outra Tinha que haver alguma ordem em todo aquele caos -.

O mundo ruía em sua volta e ele com 500 livros que nunca seriam lidos. Isso poderia ser frustrante a qualquer escritor, não para ele que mantinha a felicidade de ter escrito um livro com mais de 400 páginas, pois servia para limpar sua bunda agora. A noite dos errantes era o titulo do livro, sem crase no “A” devido a um erro da gráfica. Ele ficou de ligar na segunda-feira para reclamar, mas a segunda nunca chegou para ele, não da forma como estava habituado a vê-la chegar.

O livro falava de um apocalipse zumbi. “Adoraria ver zumbis lá fora”, se pegou falando muitas fezes em noite intermináveis de insônia. Lá fora havia homens em pele e osso, mas pele que osso, mas ossos do que homens (homens-zumbis). 

Queria acreditar que Deus tinha apertado o botão do FODA-SE e mando tudo para o inferno, mas sabia que Ele não tinha nada haver com aquilino. E não se pode culpar um deus por omissão. Ele sabia que alguém tinha apertado o botão do FODA-SE, no entanto, aquela altura, não importava de qual país tinha sido o dedo, ou se tinha sido o dedo de um branco, negro, asiático, homem ou mulher, de alguém que acreditasse em Deus ou não. Ou se havia sido o dedo de uma criança, não importava porque no final tinha sido um ser humano, no auge de sua monstruosidade, a fazer brotar as flores da morte.    

Procurou um espelho para se ver pela última vez, achou o pedaço de um que havia sido imponente um dia e hoje era apenas um pedaço de vidro que refletia um semblante ossudo do que um dia fora um homem. Ao ver-se se assustou. Seus olhos continuavam castanhos claros, mas eram de uma tristeza profunda, os cabelos ruivos estavam ensebados, desgrenhados e as sardas quase imperceptíveis devido à quantidade de ossos protuberantes de sua face. “Já tive bochechas, agora tenho apenas queixo e dentes podres”, falou. Pensou que talvez fosse o último ruivo da face da terra e achou engraçado ser um animal em extinção. 

Jogou o espelho num canto qualquer, não tinha mais importância, foi em direção da cadeira, subiu e amarrou a corda improvisada na viga de sustentação de seu abrigo-lar. Por uns instante teve medo de estar magro de mais e ao invés de quebrar o pescoço ficar dependurado sem poder descer – que irracional pensar assim -.

Olhou para a seringa com a última dose de insulina, se a injetasse em seu corpo quase morto não saberia mais como sobreviveria e o que menos queria era ter mais coisas para se preocupar. Pôs a corda no pescoço, não fez um lanço, amarrou-a de forma rude, com a certeza de que estava bem atada em seu pescoço fino e ossudo. Rezou um pai nosso, uma ave Maria. O mundo poderia ter acabado, mas sua fé ainda não.

- Não consigo – continuo com lágrima nos olhos – Não posso me matar, minha alma não teria salvação e eu iria para o inferno. Mas já vivo em um - refletiu.

Era um escritor fracassado que nunca havia vendido um único livro e agora planejava morrer, não por ser um escritor fracassado e sim por viver em um mundo fracassado. Tudo estava preparado, menos uma carta de despedida, para quem lê?


Seu corpo começa a sentir a necessidade da insulina, ele faz uma última prece, pedi para que Deus venha ou mande um anjo pegar a insulina e aplicar em seu braço, assim saberia que Deus sempre esteve com ele. Mas não foi Deus quem apertou o botão do FODA-SE e sim o homem, enquanto Deus dormia.                      

Marcos Martins.
  

domingo, 3 de novembro de 2013

Mais um filho que nasce. Trecho de mais um de meus livros: "A democracia dos derrotados"


  

(...)
 
- Você agora acha que é escritor, Roger? – perguntou Soluço com sarcasmos na voz.
 
- Não, não sou - respondeu Roger ao que deixou todos surpresos.
 
- Não? – entoaram em coro, quase como um mantra, todos os que lhe conheciam e estavam no inferninho.
 
- Não acho... Eu sou escritor. – ao que respondeu Roger com força e impostando a voz.  
 
Fez-se um silêncio sínico por algum tempo e logo em seguida, gargalhadas debochadas e risos com escárnio criaram um eco tão forte no local, que até quem não ouvira Roger responder a provocação começou a sorrir. Ele retraiu os ombros e curvou-se, criando uma elevação na camisa que dava a entender que tinha uma corcova enorme em suas costas, foi então que a sensação de que a vida lhe tirara tudo, até o direito de sonhar, havia sido implantada em seu coração.
 
(...)
 
Marcos Martins.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mais uma obra nascendo em minha mente tempestiva

"Eu não tinha grana, não tinha talento, tinha apenas um punhado de milho em minhas mãos e galinhas morrendo de fome ao meu redor, confabulando para me dar uma rasteira e me tomar tudo".


O imaginário desfabuloso de um João ninguém. 
Marcos Martins.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Deixa a escova sobre a mesa e venha coçar minhas costas, pois nada mais importa; nem os títulos, nem os túmulos


Deixa a escova sobre a mesa e venha coçar minhas costas, pois nada mais importa; nem os títulos, nem os túmulos


Me larga, deixa que eu me vá, me desmanche e permita que eu seja levado como poeira;

Me larga, deixa que eu ande sem rumo, sem um lugar certo para repousar minhas chagas;

Me larga, deixa que eu use o gerúndio, não importa se vou estar fragilizando a poesia;

Me largar! Me deixa tocar as estrelas, me deixa contar as estrelas, pois sei que em uma delas há de existir vida que vá-lha a pena salvar; 

Me larga, deixa que eu seja feliz dentro de toda essa loucura que é a minha tua, nossa vida;

Me larga que eu quero sorrir, que eu quero não ter medo, não ter culpa, não ter ira, não ter nada e mesmo assim não me sentir vazio;

Me larga, deixa tudo como está, onde tudo deve ficar – dentro dos universos quânticos –.

Não importando o peso da poeira que paira;

Não importa o cheiro da poeira e do mofo;

Não importa os títulos sem sentido para quem vê por entre as brechas dos universos paralelos; para quem senti, mesmo sem tocar.

A poeira me mostra que os tempos passaram e que valeram a pena sangrar, errar, chorar.

Tentar, tentar, tentar. Desistir. Voltar a tentar.


Marcos Martins.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O tempo passa, a poesia fica e as flores, nos dias de hoje, morrem sozinhas sem serem contempladas da forma que deveriam




Flor no asfalto


Uma flor nasceu no asfalto. Todos ficaram chocados com tamanha audácia, mas começaram a parar suas vidas rápidas para notarem o quão linda estava à flor. De cor cintilante, nascida na selva de pedras, onde predadores com número 40 e salto agulha poderiam furar-lhe as pétalas nasceu à flor no asfalto.

Uma flor nascida, não se sabe como, nem o porquê, pois tudo tem seu porque – Não importa sua cresça, ou as razões para se fazer sangrar -.

Foi feito um referendo e todos os homens de gravata e paletós caros decidiram acatar o pedido da população, com suas vidas rápidas, e matar a flor que lhes distraiam e fazia com que parecem para por em prática a ociosidade da contemplação.

Foi arrancada do chão a flor que nasceu no asfalto cinza, de uma cidade cinza, com homens que calçam 40 e mulheres de salto agulha. 

Nasceu onde não devia a flor do asfalto, e por isso mesmo, foi morta como todos desejaram.

E a falta de amor seguiu;
E a falta de tempo seguiu;
E todos seguiram e sentiram-se mais seguros, sem uma ameaça que pudesse distrair os que seguem, na cidade dos não lugares.        


Marcos Martins.

quarta-feira, 20 de março de 2013

37 páginas de meu livro para lerem!



Olá amigos! Quem quiser dar uma lida em meu livro: O lado Avesso - Nornes, o mago. Onde misturo seres de nosso folclore como: curupiras, caiporas, alamoas (vc conhece a lenda da Alamoa? Não?), com dragões, elfos, magos, guerreiros, etc... Ah! Também coloquei falas de nossas linguá indígenas para servir como língua dos curupiras e criar um identidade nacional para esse celebre personagem de nosso folclore. Quem quiser ler 37 páginas de meu livro é só ir para esse endereço: Click aqui!

O livro está a venda nas livrarias: cultura, editora Baraúna e Saraiva (em e-book). 

Vamos valorizar os escritores nacionais pessoal! Abraços literários em todos!

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Nem tudo o que circulam nos esgotos são dejetos. Sonhos mortos, esperanças perdidas e a miséria humana também podem ser encontrados lá.

Nem todo o mau cheiro do mundo sai dos esgotos, insisto;
Nem toda bondade gera bondade;
Nem toda verdade é verdade de fato - Quem define os parâmetros da verdade? Eu, você? - 

Todo homem trilha seu caminho, todo caminho tem seus espinhos e muitas vezes temos que segui-los descalços. 

Nem todo o ouro do mundo pode fazer um homem sem sonhos sorrir. 

Nem todo o fluxo do rio pode ser contido, pois 40 dias de chuva torrencial muda qualquer paisagem e faz com que à vida siga, com ou sem protagonistas.     


Marcos Henrique.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Crucificado

 
Crucificado
(Marcos Henrique Martins)

Hoje, acordei cansado. Comecei o dia ansioso pela noite que se recusava me tocar, pois me traria o sono e o sono me levaria ao mundo dos que sonham. Fiquei à noite interia, em claro, com a esperança de ser visitado pelo senhor Morpheus, mas ela já deveria estar dormindo feito um anjo. Fiquei e
m claro esperando por mais um dia de fadiga, dessa sensação de perda e claustrofobia que minha impotência causa.

Hoje, acordei cansado com os olhos inchados de tanto chorar, com a boca seca e a garganta áspera de tanto orar. Pedi, em dado momento implorei, neguei o silêncio, por fim aceitei o vazio.

Hoje, descortinei as entrelinhas da vida, percebi o quão só somos; o quão poeira somos; o quão tolo somos. Existência passiva. Vida cativa, ordeira, que me causa náuseas, este mal estar.

Hoje, pude ver, com os olhos cheios de olheiras, como somos ovelhas nesta terra de raposas, raposas que se camuflam tão bem, fingem ser vegetarianas e adorarem brócolis e espinafre.

Hoje, acordei e por um breve momento não quis levantar. Mas aquela voz dizia-me:
“Vai! Levanta para sangrar por mais um dia.”
“Vai! Levanta para chorar por todos e por você.”
“Vai! Levanta para lutar por teu pão, sacrificado, de cada dia.”
“Vai! Levanta e vai viver a tua vida.”
“Levanta e vai viver, pois na vida não há tempo para lastimar!”
“Vai! Crucifica-te por todos e por quem não te enxerga, nesta multidão ocupada com seus mundos particulares.”

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ao meu filho que nasceu morto




Ao meu filho que nasceu morto
(Marcos Martins)


Deveria ser lindo. Porque não consigo visualizar como ele seria, nem imaginar se sua vida seria boa, feliz, dura ou extraordinária?

Nunca saberei nada sobre ele.

Suas mãozinhas, lindas e frágeis, nunca sentirei tocar minha face e acalentar meu sorriso, meu rosto, minhas rugas, meu espírito. 

Suas perninhas nunca se tornarão fortes para me acompanhar mundo a fora.
Seu sorriso, fui privado de conhecer.
Suas gargalhadas, ao descobrir algo novo, nunca serão ouvidas por toda a casa. 
Seus choros nas madrugadas intermináveis, nunca me acordarão.

Não vou vê-lo crescer fora do útero.

Não me restou nem seu registro - nasceu sem existir legalmente. - Não pode respirar.
Não pode me olhar nos olhos e eu me ver refletido em sua íris.

Não chorou ao nascer; 
Não chorou na morte ao sair de seu invólucro.

Se virou anjo, nunca saberei.
Se, se tornou partícula do nada que nos cerca, nunca poderei tocá-lo.

Deus te abençoe, meu filho, e te mostre a luz que não pude ver refletida em teus olhos.

sábado, 17 de março de 2012

Ele olhou para mim



Ele olhou para mim
(Marcos Hernique Martins)


Ele olhou para mim e chorou, suas lágrimas amargas de horror. Os dias são dias amargos quando estou só. Toda tempestade vem com um pouco de paz.

Nós sempre perdemos quando queremos ganhar;
Todos os sábios estão mortos e você o que faz?
E você o que fez?

Ela disse que sempre me amaria;
Seus olhos me diziam que não duraria mais que dois orgasmos;
Suas mãos tão geladas quanto o outono no deserto, me toca e me arrepio;
Meu espírito sempre soube que perderia.

Nós sempre perdemos quando queremos ganhar;
Todos os sábios estão mortos e você o que faz? E você o que fez?

Você o que faz?


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu recomendo o blog Cooltural



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