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domingo, 3 de novembro de 2013

Mais um filho que nasce. Trecho de mais um de meus livros: "A democracia dos derrotados"


  

(...)
 
- Você agora acha que é escritor, Roger? – perguntou Soluço com sarcasmos na voz.
 
- Não, não sou - respondeu Roger ao que deixou todos surpresos.
 
- Não? – entoaram em coro, quase como um mantra, todos os que lhe conheciam e estavam no inferninho.
 
- Não acho... Eu sou escritor. – ao que respondeu Roger com força e impostando a voz.  
 
Fez-se um silêncio sínico por algum tempo e logo em seguida, gargalhadas debochadas e risos com escárnio criaram um eco tão forte no local, que até quem não ouvira Roger responder a provocação começou a sorrir. Ele retraiu os ombros e curvou-se, criando uma elevação na camisa que dava a entender que tinha uma corcova enorme em suas costas, foi então que a sensação de que a vida lhe tirara tudo, até o direito de sonhar, havia sido implantada em seu coração.
 
(...)
 
Marcos Martins.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Nasce um poetar


Nasce um poetar


Sinto que uma poesia quer nascer – sair de dentro de meu ser -, porém, não sei como fazer para expeli-la (Os anos no serviço burocrático me apagaram).

Sinto-a em meu peito e umedecendo os olhos, mas não me faz chorar, é mais saudade de lugares que sei nunca vou tocar com minhas mãos ásperas.


Marcos Martins.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O tempo passa, a poesia fica e as flores, nos dias de hoje, morrem sozinhas sem serem contempladas da forma que deveriam




Flor no asfalto


Uma flor nasceu no asfalto. Todos ficaram chocados com tamanha audácia, mas começaram a parar suas vidas rápidas para notarem o quão linda estava à flor. De cor cintilante, nascida na selva de pedras, onde predadores com número 40 e salto agulha poderiam furar-lhe as pétalas nasceu à flor no asfalto.

Uma flor nascida, não se sabe como, nem o porquê, pois tudo tem seu porque – Não importa sua cresça, ou as razões para se fazer sangrar -.

Foi feito um referendo e todos os homens de gravata e paletós caros decidiram acatar o pedido da população, com suas vidas rápidas, e matar a flor que lhes distraiam e fazia com que parecem para por em prática a ociosidade da contemplação.

Foi arrancada do chão a flor que nasceu no asfalto cinza, de uma cidade cinza, com homens que calçam 40 e mulheres de salto agulha. 

Nasceu onde não devia a flor do asfalto, e por isso mesmo, foi morta como todos desejaram.

E a falta de amor seguiu;
E a falta de tempo seguiu;
E todos seguiram e sentiram-se mais seguros, sem uma ameaça que pudesse distrair os que seguem, na cidade dos não lugares.        


Marcos Martins.