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quinta-feira, 9 de julho de 2015

SER POESIA



SER POESIA 


Quando me vi poeta, meu mundo ficou sem luz por dois segundos, depois tudo acendeu e ascendeu com tamanha força, com tanto brilho que senti que iria ficar cego para sempre, mas logo à vista foi recuperando o foco e nunca mais foi à mesma. Passei a enxergar com todos os sentidos. Passei a sentir com todos os sentidos. Passei a ouvir com todos os sentidos. Passei a viver, a morrer, a chorar, a sofrer, a sangrar, com todos os sentidos.  

Quando descobri que o bicho que comia lixo não era um simples bicho e sim o rei da cadeia evolutiva, meu chão desapareceu, meu eu foi amaldiçoado pela necessidade de parir esses versos (poesia que de mim se faz brotar).

Ser poeta é sentir tudo em demasia, é viver todo dia como se fosse o único dia – versos líricos, epifania que não se deve, nem se pode explicar.

Ser poeta é ser só, enxergar as entrelinhas, tocar a última estrela do universo indiferente, dar nomes a cada fase do luar, se dilacerar, viver tudo em demasia, conviver com o caos que sempre está lá (dentro da origem). 

A poesia contida em mim chega a machucar meu peito, como se alguém esmagasse meu tórax me privando o respirar.

Poesia é sentimento por osmose, vontade de se libertar, seja em versos milimetricamente pensados ou versos livres como o espírito humano ao chegar nesse mundo de correntes; é ser vivo todo ardente, labareda em meu eu que ninguém a de apagar.  

Marcos Martins.



sexta-feira, 3 de julho de 2015

COM AS MÃOS UNTADAS EM SANGUE, SALVO O MUNDO DE MINHA HUMANIDADE


COM AS MÃOS UNTADAS EM SANGUE, SALVO O MUNDO DE MINHA HUMANIDADE



Um rato é apenas um rato e nada mais.
Um desejo é apenas um desejo e nada mais.
Um sorriso é apenas um sorriso e nada mais (já não se ri como ontem).

Depois da curva vem à guerra, e o espantalho já não pode mais erguer os braços para afastar os corvos do milharal da indiferença.

Com o sangue em minhas mãos, salvo o mundo do mundo;
Com o sangue em minhas mãos, lavo o chão que dá para a porta dos fundos;
Com o sangue em minhas mãos, vejo apenas sangue, só sangue, sangue.

Sou homem rachado – sertão que não cai nunca água;
Sou um homem despedaçado – com os fragmentos espalhados aos quatro cantos da solidão;
Sou um homem que já não sabe mais como pisar no mundo minado.

Sou sangue;
Sou dor;
Indiferença.

Sou solidão;
Amor;
Indiferença.

Faço versos líricos para mostrar o quão mágico pode ser o homem de barro;
Faço versos líricos que sangram; que mancham a mente com questionamentos dentro do mundo sectário. Por isso, faço esses versos líricos para viver devaneios que me permitam sentir-me bem dentro desse corpo labiríntico.



Marcos Martins.

sábado, 6 de junho de 2015

Do instinto


Do instinto


Olhos que não posso roubar;
Lábios que não posso tocar;
Corpo que não posso desejar.

És doce – sem nunca ter te provado;
És rosa bela – com espinhos para mim machucar;
És tudo – sou mínimo.

Teu sorriso quero guardar em minha caixa de pertences valiosos, para que sempre que a solidão me abata possa contemplá-lo (De todos os quereres que um ser pode desejar, escolho o que não posso almejar).

Olhos perolados sempre a mim fitar;
Lábios carnudos que nunca ei de provar;
Corpo labiríntico que nunca poderei desvendar.

Perco-me em teu sorriso;
Prendo-me em meu racionalismo.
Sou apenas um só sem rumo, sufocando esse rubor no peito aberto em prantos que em vão tento abafar.

Olhos, doces olhos;
Lábios, desejáveis lábios;
Corpo, absintico corpo.

Desejos que não cessam;
Desejos que me cercam;
Desejos que não ouso confessar.

Razão! Entorpecem-me a vontade do instinto.


Marcos Martins.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

És tu



És tu


Foste tu que me inspirastes a sangrar em versos líricos;

Foste tu quem me desconcertou o pouco de juízo que tinha guardado nos bolsos da velha calça jeans;

Foste tu que fizeste com que me importasse apenas com a licença poética, nada mais;

Foste tu quem me mostrou que se pode amar sem quebrar.

Como gosto de sentir teus lábios confortando os meus. Como isso é bom. Poder sentir tua saliva na minha, teu calor invadindo minhas vértebras – como isso é bom.

Foste tu que indicasses o caminho sem mostrar-me os perigos na estrada e por esse favor te sou grato, mesmo depois de todo sangue derramado – te sou grato.

Escrevo versos com a mão esquerda, a mesma que um dia julgaram ser a do diabo, mas quem assim julgou esqueceu-se de lembrar que todos têm demônios interiores.

Sim, fiz esse verso com a mão esquerda, a mesma que afaga; que corta; apedreja; que limpa o corpo quando este fede. 

Foste tu que me impusesse o tempo gestacional desses versos, esse delírio – epifania que sai de meu peito e escorre por entre os dedos. 

Sempre és tu, ninguém mais, ninguém menos.

Marcos Martins.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Lânguido


Lânguido


Há dias e a dias em minha vida;
Há vida e a dias sem vida em minha existência; 
Há dor e há amor contido em meu ser;

Por todos esses caminhos que trilhei, esse que resolvi seguir foi o que menos me orgulhei – não se deve sair a esmo, pois se você se perde não se acha nunca mais.

Bússolas já não me servem;
Faróis para me guiar por entre minhas tempestades também não – Só me restou um pequeno espelho para que eu possa perceber que cada dia a mais, me vejo menos.

Há dias de luta, a dias que não quero mais lutar e fico tentado a partilhar com a derrota minha vida sem glórias, sem motivos para sonhar.

Sei que já disse isso antes, mas: tentar, tentar, tentar. Desistir. Voltar a tentar.     


Marcos Martins.

***

OBS.: as frases que deveriam ser escritas com “há”, para indicar o sentido de existência ou passagem de tempo as escrevi, propositalmente, apenas com um “a”, para indicar a total falta de perspectiva que está contida na poesia. Utilizei a licença poética para atropelar a gramática (que os gramáticos possam me perdoar um dia e que os linguistas possam me abençoar).

O final da poesia termina com uma ponta de esperança, já que no poema o ser poético sente, por menos que seja, amor. Isso pode ser encarado como uma contradição, mas o que é a vida senão uma grande concha contraditória, tecida com linhas de esperanças por amanhã menos cinza.     

Essa poesia é para se ler, ver e sentir.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma poesia turbulentamente normal





MUNDO TURBULENTAMENTE NORMAL


É hora de voltar ao mundo turbulentamente normal, onde sonhos são apenas sonhos e nada mais; onde vidas são apenas números e nada mais; onde a natureza selvagem fica cada vez mais domesticada em nossas cidades sitiadas.

É hora de voltar ao mundo moderno, onde podemos seguir com nossas superstições e queimar algumas bruxas, para não perdermos o hábito da superstição.

É hora de voltar ao mundo, ó mundo. O mundo que está doente, que adoecemos, que pisamos e nos importamos sem nos importar realmente. 

É hora, sempre é alguma hora para se fazer algo, algo que nunca alcanço, mas tudo bem, pois tenho amigos para rirem de minhas piadas fracas, de minhas roupas gastas, de minhas ideias medianas, de meus pertences que não me pertencem –  nada nunca me pertenceu de verdade.

É, é hora de voltar, de voltar para onde?

É bom, é bom existir, mesmo que por vezes não faça nenhum sentido para mim;

 É bom, é bom existir e saber que podemos levar nossos erros para a sepultura sem culpa alguma, pois os vermes não são puritanos;

É, é bom saber que tudo um dia termina, que o dinheiro termina, e que o mundo continua cada vez mais ensurdecedor, e que os sonhos são apenas sonhos, e que os risos são apenas risos, e que os perdidos fingem se encontrar, e que os líderes fingem se importar.

É hora de seguir nessa estrada turbulenta, com todo o meu afã.


Marcos Martins

sábado, 23 de maio de 2015

VEIO-ME O CHEIRO DA DEPRESSÃO


VEIO-ME O CHEIRO DA DEPRESSÃO


Me veio o cheiro da depressão. Não era um odor desagradável, muito pelo contrário, é um aroma mortalmente delicioso. Impregna-me todo o corpo. Não sei como posso deixar de senti-la em mim.

Um vento morno roçou em meu rosto, se insinuou porque sabia que eu não poderia lhe tocar e sussurrou em meu ouvido: - Desista, você não nasceu para ganhar.

Me veio o cheiro da depressão, se materializou em minha frente, tinha as feições delicadas, olhos sedutores e uma tatuagem da morte em seu seio esquerdo. Chamou-me para ficarmos mais íntimos, sorriu, me tocou o pescoço, os pulsos e tentou beijar-me. Fechei os olhos, lacrei os lábios.

Me veio o gosto da depressão, os gemidos, as angústias, os murmúrios, mas resolvi seguir seguindo, resolvi viver sem sorrisos, mas vivo, vivo.



Marcos Martins.