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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Uma das poesias mais forte que fiz: CÂNCER



CÂNCER


Não sinto meus membros  apenas odor;

Não consigo enxergar mais da mesma forma quando jovem. Vejo apenas vultos  fantasmas que me assolam.

Não sinto meus braços. Meus braços já foram tão fortes, agora, agora estão em frangalhos e não servem nem mesmo para segurar um copo com leito morno;

Não sinto meus órgãos, mas na verdade nunca os senti, acho que foi por isso que não me importei com eles como deveria;

Não sinto mais meus pés  apenas frio.

Não tenho forças para cobrir meu corpo – apenas frio.

Não tenho mais paladar, a comida tem gosto de cera, logo eu que adorava coisas doces, hoje só me recordo do amargo;

Não sinto meus dentes, eles caem sem me avisar, como frutas maduras ou podres que caem sem aviso prévio;

Não sei mais se estou aqui, mas estou aqui mesmo sem me sentir.

Não, não quero falar sobre isso, não quero me confessar com um padre, nem quero aceitar Jesus como meu salvador. Quero apenas definhar em paz, poder sentir os minutos finais de minha vida, a vida que me castiga agora (como se fosse castigo o acaso). 

Não sinto meu coração, mas ele ainda bate: Tum tum... Tum tum... Tum.

O que você quer de mim? 
O que meu corpo fez a mim?
Aceitar não é fácil, culpar é.


Marcos Martins.

sábado, 9 de maio de 2015

Poema: PÁSSARO BANDIDO




PÁSSARO BANDIDO 


Vem pássaro alegre e canta em meu ouvido
Diz-me o que quero ouvir - notícias de Rita. 

Vem sem medo de meu tocar, não o machucarei, prometo.
Voa voa voa pássaro amigo, vem para perto de mim, que só te quer bem.

Corro corro corro em movimento treinado para não cair, espero esse pássaro que teima em não chegar.

Ansioso, me sinto, coração disparado, vento nos cabelos – cabelos desgrenhados – e a esperança que o pássaro amigo não demora a chegar. 

Vejo o pássaro aproximando-se, vem como quem não quer nada, mas me trás notícias claras que minha vida ira mudar.

Rita casou-se, seu pai morreu, Paulo tornou-se seu marido, a quem desprezo sem conhecer, e lhe conquistou o amor que um dia julguei ser meu. 

Vai pássaro bandido, que me conta a felicidade alheia e sai sorrateiramente para revelar os infortúnios meus a ouvidos de tantos outros, que assim como eu, esperam por notícias alegres que tu nunca revelará com teu canto fúnebre.  


Marcos Martins.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Fotos que não se revelam



Fotos que não se revelam
  

Não sei fazer poses felizes em fotos, apenas mostro o reflexo triste de minha alma, de minha vida, de minhas aspirações.

Não, não sou fotogênico, meu lado esquerdo está deformando e ninguém se importa com os ratos que roem, roem e roem – a vida é uma eterna luta de devoradores -.

Não, não posso caminhar com você no parque, não com esse sol esperançoso, não com essas crianças correndo feito loucas. Simplesmente não dá.

Fui a um parque um dia, fiquei parado, observado tudo e a todos; um beija-flor chegou bem perto de mim e não conseguiu voar de costas, ele estava com defeito, assim como eu. Era isso o que achava por não conseguir fazer poses bonitas em fotos.

O mundo nos dá loucuras, não nos torna loucos, apenas faz desabrochar o que já somos.

“Não”, foi à primeira palavra que me disseram, e isso, hoje, faz toda a diferença em minha vida, pois agora sei que nem tudo o que se sonha se realiza. E não tem força de vontade que mude isso, é a natureza mostrando a força aos que acham que sabem tudo, aos que fazem poses para tirarem fotos que nunca se revelam.


Marcos Martins.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Gosto




Gosto


Gosto de ficar observando as pessoas
Gosto quando elas se revelam sem saberem que estou olhando
Gosto de imaginar o que estão pensando, em que mundo estão, se no tangível ou no intangível.

Mas o que eu queria mesmo, de todo o coração, era poder ouvir o pensamento de gente simples para poder explicar aos intelectuais como é fácil sorrir.


Marcos Martins.

domingo, 3 de maio de 2015

Um de meus contos: UMA TRAGÉDIA NÃO GREGA



UMA TRAGÉDIA NÃO GREGA



Ele queria ser intelectual, forçava a barra para parecer inteligente, até chegou a desenvolver um cacoete, que para ele era “Ô cacoete” que só intelectuais possuíam, pelo menos pensava assim. Seu jeito de andar era imponente, como se soubesse responder todas as perguntas do mundo e as que ainda seriam formuladas algum dia. Por isso andava de forma pesada, como se a gravidade agisse de forma diferente em seu corpo – como se andasse com a sapiência do mundo nas costas. 

Sempre que estava sentando em algum canto, colocava a mão no queixo, fazendo pose de pensador, mas não pensava em nada, era apenas uma forma de aparentar ser inteligente, de ser respeitado, mesmo sendo um fingidor.

Nos finais de semana ia para livrarias e folheava os livros de Kant, Dotoieswisk, Focô, Satre, entre tantos pensadores. Os filósofos gregos eram os seus favoritos, seu ego ficava garboso ao folhear um livro de Platão ou Sócrates, mas o que ninguém sabia era que ele apenas lia os prefácios dos livros. Passava horas com um livro de Nietzsche nas mãos, mas nem conseguia escrever o nome do filósofo nem sabia que Zaratustra tinha contado aos quatro cantos que Deus estava morto. Achava que o filósofo alemão tinha nascido na Argentina.

Descobriu-se mais tarde que na verdade ele ficava contemplando o bigode de Nietzsche, pois tinha vontade de ter um bigode como aquele. Achava que se tivesse um bigode feito o de Nietzsche seria idolatrado por gregos e troianos, porém como gostava de tomar sopa, e sua mãe preparava uma sopa como ninguém toda a terça-feira, logo desistira da hipótese de ter um bigode como aquele. Respirava fundo e entristecia o olhar sempre que via o delicioso prato de sopa em cima da mesa a lhe seduzir e ter o sonho de um bigode impecável não se realizar.

Na roda de amigos, se sentia um rei, sempre falava dos filósofos que nunca lera de verdade e por isso era idolatrado por uns e detestado por outros também, que notavam o quão raso era. As garotas lhe desejavam como Eva desejou Adão – e ele se sentido o fruto proibido. Mas tudo termina um dia e ele foi desmascarado. De tão envergonhado tentou ler todos os livros que fingira ter lido em sua vida inteira. Só que o senhor Tempo é imparcial e em um complô com o senhor Morte, lhe ceifaram a vida – antes mesmo dele ter terminado de ler a Divina Comédia e Dom Quixote.

E sua vida permaneceu rasa, e sua morte foi esquecida rapidamente, e o fruto apodreceu na árvore sem ser degustado.                  

Marcos Martins.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Não sei fazer poesia de amor


Não sei fazer poesia de amor



Não sei fazer poesia de amor
Meus versos gritam
Meus versos sangram
Mas não é amor.

Sinto algo mais antigo – algo abissal.
Não é amor.
Poderia ser tudo, menos amor,
Porque não sei fazer poesia de amor.

Todos os abraços;
Todos os toques;
Beijos, secreções
Não foram idealizados por amor.

(Foi tudo instinto)

Não, não é amor,
Poderia ser tudo: Dor; medo; sudorese; ansiedade; enfarte do miocárdio; gases... Não amor.

Não sei o que é, mas não é amor,
Não, não é.
Não, não era.



Marcos Martins.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Via espero


Via espero
(Tua Esperança)


Pega tua esperança e enfia no fundo de tua alma, pois aqui não há lugar para fugacidades. Aqui, vivemos entre pedras e lágrimas; entre terra seca e poças de sangue vermelho-amor-partido.

Vá! Suma de meu alcance, pois não tenho mais cola para consertar o que estraçalho. Minhas mãos – adorno sem serventia no mundo globalizado – repousam na garganta frágil de uma musa inativa, tristemente fragilizada;

Vá! Suma de minha vista, pois não quero nem sentir um fio de tua existência tocada, roçada, em meu corpo carbonado.

Hoje sou só mais um sem adjetivos, absorto em meu aforismo sem sentido (rebelde sem vestes que lhe cubra o corpo desnudo);

Hoje, não quero mais saber do amanhã, por isso escrevo em versos livres, longe de toda a simetria que a poesia possa querer me dotar;

Um copo de bebida esquenta sobre a mesa suja.
Um copo do veneno colérico do século XX para me desfalecer, da mesma forma que ironicamente Walter Benjamin se fez morrer (um homem com medo nega todas as possibilidades de se fazer surgir uma possibilidade).

Vem, vêm versos que me liberta;
Vem, vêm versos que me dorna o vivido;
Vem, vem e deixa toda a tua métrica de fora, pois de ti quero apenas a sensação que me faz homem despido;

Vem e suma.

Vem, tormento Nietzschiano em mim contido (sopro e vida que me agonia os sentidos);

Vem dia festivo (estorvo do corpo, estorvo que me subtrai os sentidos).

Pega tua esperança e leva-a para bem longe de mim, enterra em um cemitério clandestino.

Tua esperança me deflora. Magoa. Necrosa.


Marcos Martins.